Reflexões de Judt

Trechos extraídos do livro “O chalé da memória” (Objetiva), do historiador inglês Tony Judt (1948-2010).

O chale da memoria_Tony Judt

Ensino de qualidade é a única coisa pela qual vale a pena se lembrar da escola.

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Ninguém deve sentir culpa por nascer no lugar certo na hora certa. Nós, no Ocidente, pertencíamos a uma geração sortuda. Não mudamos o mundo; a bem da verdade, o mundo mudou obsequiosamente para nós. Tudo parecia possível: ao contrário dos jovens de hoje, nunca duvidávamos de que haveria um emprego interessante para nós, e por isso não precisávamos perder tempo com cursos degradantes como o de administração e negócios. A maioria seguia carreira na educação, ou entrava para o funcionalismo público. Concentrávamos nossa energia na discussão sobre o que havia de errado no mundo e em como transformá-lo. Protestávamos contra as coisas de que não gostávamos, e estávamos certos em fazer isso. Aos nossos próprios olhos, éramos uma geração revolucionária. Pena que tenhamos deixado escapar a revolução.

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Continuamos presos à noção da era industrial de que a profissão nos define: mas isso não corresponde à verdade para a imensa maioria das pessoas de hoje. (…) Acabei fazendo o que sempre quis fazer – e sendo pago para isso. A maioria das pessoas não é tão afortunada. Empregos, em sua maioria, são tediosos: não enriquecem nem sustentam. Mesmo assim (como nossos antecessores vitorianos), voltamos a encarar o desemprego como uma condição vergonhosa: algo semelhante a uma falha de caráter. Especialistas bem pagos apressam-se em dar lições às “rainhas da previdência” sobre a torpeza moral da dependência econômica, a impropriedade dos benefícios públicos e a virtude do trabalho duro. Deviam tentar isso em algum momento.

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A insegurança cultural gera um equivalente linguístico. O mesmo vale para avanços tecnológicos. No mundo do Facebook, MySpace e Twitter (para não mencionar as mensagens), a alusão incisiva tomou o lugar da explicação. A internet parecia uma oportunidade para comunicação irrestrita mas a vocação comercial crescente da rede – “eu sou o que eu compro” – embute um empobrecimento do meio. Meus filhos comentam sobre sua geração que a comunicação simplificada usada em seus equipamentos já começou a se infiltrar na própria comunicação: “As pessoas falam como mandam mensagens”. Eis um motivo para preocupação. Quando as palavras perdem sua integridade, o mesmo ocorre com as ideias que elas expressam.

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