Uma história do samba – parte 15 (final)

Alvorada no século XXI

Há os que se julgam remadores em direção ao futuro.

Não sabem que o samba lhes esculpiu o barco

– Aldir Blanc

Habitat da malandragem e dos sambistas nas décadas de 1920 e 1930, a Lapa carioca, emoldurada pelos seus belos Arcos, renasceu quando despontou o século XXI. Depois de passar anos abandonado, com seus casarios históricos praticamente em ruínas, o bairro das quatro letras surgiu renovado, dando razão a um velho samba de Benedito Lacerda e Herivelto Martins. A Lapa, lançado por Francisco Alves em 1950, quando o Rio ainda era capital do país, dizia:

A Lapa

Está voltando a ser

A Lapa

A Lapa

Confirmando a tradição

A Lapa é o ponto maior do mapa

Do Distrito Federal

Salve a Lapa!

A partir de 2001, o local retomou sua vocação de ponto de encontro boêmio e pólo cultural, atraindo freqüentadores de diferentes tribos e faixas etárias. Nos bares e casas de show recém-inaugurados, o que mais se ouvia era o samba feito por uma nova geração de artistas, entre eles, Teresa Cristina e Marcos Sacramento. Essa revitalização inspirou o produtor Hermínio Bello de Carvalho a criar, em 2002, o espetáculo O samba é minha nobreza, uma espécie de releitura de seu antológico Rosa de ouro. O novo show narrava a história do samba trazendo ao palco os veteranos cantores Roberto Silva e Cristina Buarque, ao lado de nomes estreantes revelados na noite da Lapa, como Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta e Mariana Bernardes.

Teresa Cristina, cantora e compositora

Naquele mesmo ano, a conquista do pentacampeonato mundial de futebol pela Seleção Brasileira também foi embalada ao ritmo de samba, com Deixa a vida me levar (Serginho Meriti/Eri do Cais) na voz de Zeca Pagodinho, cantor e compositor que alcançou o século XXI como uma das estrelas da MPB. Cantado por Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho após as vitórias, o samba caiu no gosto popular e tornou-se um mega-sucesso.

Em São Paulo, o gênero também passou a demonstrar novo fôlego, por meio de shows e discos da cantora Fabiana Cozza e do Quinteto em Branco e Preto, artistas que partindo da tradição apontam o samba em direção ao futuro. Além disso, ganharam espaço na metrópole paulista rodas musicais nas quais são revelados os compositores contemporâneos, a exemplo do Samba da Vela. O encontro acontece nas noites de segunda-feira no Centro Cultural de Santo Amaro, na zona sul da cidade, com os participantes dispostos em volta de uma mesa onde é colocada uma vela acesa. O repertório é todo de sambas novos, e a roda só termina quando a chama da vela apaga.

Samba da VelaComunidade Samba da Vela, de São Paulo

Fora esses artistas, que seguem uma linha mais tradicional, outros tantos promovem o diálogo do gênero com outros ritmos e linguagens. É o caso de Marcelo D2 e de Rappin Hood, ambos promotores da mistura do samba com o hip hop. Na alquimia sonora deles, entra o rap norte-americano centrado no força poética dos MCs e, ao mesmo tempo, a bossa de Tom Jobim, o soul de Tim Maia, o balanço de Jorge Benjor e o partido-alto de Candeia.

Marcelo D2 achou sua “batida perfeita” no samba

O mesmo tipo de fusão também se dá com a música eletrônica. Samplers e remixes são destaques nos discos de Max de Castro, Fernanda Porto, Jair Oliveira e Simoninha. O teleco-teco eletrônico dessa turma não é simples de ser definido e acaba gerando estilos que recebem de seus autores denominações como “bossa-funk-samba”, “drum-‘n’-bossa”, “samba-lounge” e “trip-bossa”.

Até mesmo o rock, aparentemente um gênero rival, acabou se embrenhando no samba. Desde o cruzamento pioneiro promovido por Jorge Benjor, outras experiências vêm sendo feitas constantemente, passando pelos discos dos grupos Os Mutantes e Novos Baianos, nos anos 1970, atingindo Lobão, Cazuza e Marina Lima na década seguinte, e chegando na banda Los Hermanos, no alvorecer dos 2000.

Maria Rita e Diogo NogueiraNova geração: Maria Rita e Diogo Nogueira, filhos de Elis Regina e João Nogueira

A fonte sambística dos Los Hermanos, brotando principalmente das criações de seu cantor e guitarrista Marcelo Camelo, rendeu um manancial de composições que ajudaram a projetar nacionalmente a cantora Maria Rita, filha de Elis Regina. Aliás, esse início de século XXI apresenta-se pródigo em vozes femininas. Interessadas em fazer fusões ou simplesmente alinhadas no caminho da tradição, praticamente todas as cantoras da nova geração estão antenadas no samba, dedicando algumas faixas de seus discos ou até mesmo álbuns inteiros ao gênero. Nisso, elas seguem a trilha de Marisa Monte.

Outra característica desse início de milênio é a evolução da tecnologia, que vem revolucionando não apenas a maneira de se fazer música, mas, principalmente, a forma de consumi-la. O advento da internet, somado ao surgimento do Ipod e aparelhos similares tocadores de arquivo de música no formato MP3, alterou o modo de produção dos artistas e a relação destes com seus ouvintes.  Com a possibilidade de gravar suas músicas com qualidade em estúdios caseiros e divulgá-las na internet, cantores e compositores não necessitam mais disputar espaço exclusivamente em gravadoras, rádios e televisões.

O samba, presente há 100 anos na vida brasileira, não está alheio às transformações. Seja tocado em terreiros, num formato próximo de como surgiu no tempo de Tia Ciata, ou então eletrificado e misturado a outros ritmos para aparecer em sites como YouTube e MySpace, o samba permanece como a cara do Brasil.

Marisa Monte

Marisa Monte não é apenas a tribalista que canta o pop romântico Amor, I love you com os parceiros Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Intérprete lançada no final dos anos 1980, que se tornaria uma das grandes estrelas da MPB nas décadas seguintes, a eclética Marisa se mostra à vontade em qualquer ritmo e gênero. Sua intimidade com o samba, no entanto, vem de berço – literalmente. Filha de um diretor da Escola de Samba Portela, Marisa foi criada ao som do repertório dos compositores da agremiação.

Marisa Monte e Zeca Pagodinho na quadra da Portela com integrantes da Velha Guarda

Em 1994, no álbum Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, a cantora gravou os sambas Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Esta melodia (Bubu da Portela/Jamelão), neste último acompanhada pela Velha Guarda da Portela. Cinco anos mais tarde, ela se aproximaria novamente da Velha Guarda ao produzir o CD Tudo azul, com grupo de baluartes da Portela.

Mais recentemente, após o sucesso com o grupo Tribalistas, Marisa Monte retomaria o samba com o álbum Universo ao meu redor (2006), no qual gravou músicas dos portelenses Casemiro Vieira e Argemiro Patrocínio, e ainda com o filme-documentário O mistério do samba (2008), produzido por ela a partir de sua pesquisa musical na Portela.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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6 comentários sobre “Uma história do samba – parte 15 (final)

  1. Alexandre,

    Antes de mais nada, parabéns pelo texto, pelo blog e por tudo o que faz.

    Sou estudante de letras, estou fazendo o meu tcc sobre canção contemporânea e gostaria muito de usar este texto como referência. Esse livro-apostila foi publicado? Você sabe como posso consegui-lo?

    Desde já agradeço.

    Abraços,
    Julia

    1. Oi, Julia
      Foi publicado pela rede de ensino Pueri Domus, mas é vendido apenas para os alunos.
      Te mando uma versão eletrônica anexada por e-mail.

      Abs
      Pavan

  2. Prezado Sr. Alexandre Pavan
    Quero lhe agradecer imensamente seus textos sobre samba, que muito tem contribuído para um programa sobre o tema que apresento na radio cambirela(em SC). Já mencionei várias vezes seu nome durante a programação, sem conhecê-lo. Mas, seu trabalho é fantástico, parabéns!!!
    Paulo Pereira(jornalista)

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