Uma história do samba – parte 14

O Pagode e a axé-music em cena

O fim da ditadura militar só aconteceria em 1985, após um demorado processo de abertura política iniciado no governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), que prometia uma distensão “lenta, gradual e segura”. O período de incerteza, que misturava sentimentos de medo e esperança, ganhou uma espécie de hino, a partir do sucesso do samba O bêbado e a equilibrista (João Bosco/Aldir Blanc) na voz de Elis Regina (de novo, ela!):

Meu Brasil

que sonha

com a volta do irmão do Henfil

com tanta gente que partiu

num rabo de foguete

chora a nossa Pátria Mãe gentil

choram Marias e Clarices

no solo do Brasil…

Parodiando a forma de um samba-enredo, essa canção descreve cenas da vida brasileira daquele momento, referindo-se aos exilados políticos (“tanta gente que partiu”) e citando personagens reais. O “irmão do Henfil” é o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henfil; enquanto a Clarice que chora é uma referência à viúva do jornalista Vladimir Herzog, enforcado numa prisão da ditadura, em 1975, na cidade de São Paulo.

Neoci, Alcir Portela, Mauro Braga, Jorge Aragão e China em roda de samba no Cacique de Ramos

Embora o clima político continuasse incerto, no subúrbio carioca de Ramos, animadas rodas de pagode começavam a dar uma nova cara ao samba. A palavra “pagode” é originária do sânscrito e significa “templo destinado por alguns países asiáticos ao culto de seus deuses”. No Brasil, o termo já era empregado pelos portugueses desde o século XVI, para designar qualquer diversão popular. Já na década de 1950, passou a denominar toda reunião de sambistas em que houvesse música, dança e comida.  A partir dos anos 1970, com a expansão das rodas de partideiros nos subúrbios cariocas, conforme ensina o historiador Jairo Severiano, “o pagode passou a dar nome a um tipo de samba praticado nessas reuniões, que admite banjo, tantã e repique de mão, e guarda ligeira semelhança com o partido-alto.”

De todas essas rodas, a que alcançou maior projeção foi a promovida na quadra no bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Sob a liderança do presidente da agremiação, Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente, ali foi formado o núcleo do grupo Fundo de Quintal, onde ganharam destaque cantores e compositores de talento, como Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Almir Guineto e Luis Carlos da Vila. A música que projetou essa turma foi Vou festejar (“Chora/ não vou ligar/ chegou a hora/ vais me pagar/ pode chorar…”), de Jorge Aragão, Dida e Neoci, lançada por Beth Carvalho no disco De pé no chão, com repertório dedicado ao novo estilo.

Durante a década de 1980, o mesmo tempo que as rodas de pagode davam nova forma ao samba, em Salvador o gênero também ganhava nova energia, com o surgimento da música afro-pop baiana, mais conhecida como axé-music. Resultado da mistura da música dos trios elétricos com o som dos blocos afro, isto é, da mescla do frevo baiano com o samba-reggae, a axé-music dominou a MPB em boa parte da década de 1990. O novo gênero conseguiu se destacar no mercado fonográfico, apesar de não figurar no predominante eixo Rio-São Paulo.

Da fase inicial da axé-music podemos citar os cantores Luiz Caldas, Sarajane e Margareth Menezes, e as bandas Mel, Asa de Águia, Cheiro de Amor e Chiclete com Banana. Fundamental, no entanto, foram as presenças do cantor-compositor Gerônimo (pioneiro na mistura da música de candomblé com ritmos caribenhos), do percussionista Neguinho do Samba (um dos fixadores da batida do samba-reggae) e dos blocos afro Ara Ketu, Olodum e Ilê Ayiê. Em 1990, o Olodum ganharia projeção internacional ao participar da gravação de um videoclipe do roqueiro Paul Simon. Mais tarde, convites semelhantes viriam de Michael Jackson, Wayne Shorter e Jimmy Cliff.

Percussionistas do Olodum

Tanto o pagode quanto a axé-music acabaram dando origem a subprodutos pop que, apesar da estampa bem produzida, apresentavam um resultado musical de qualidade inferior. Proliferaram grupos como Só Pra Contrariar, Raça Negra e Exaltasamba, que se apropriaram do termo pagode para fazer um samba pop romântico quase sem nenhuma semelhança com o estilo lançado no Cacique de Ramos ou com o tradicional samba-canção. Sob a etiqueta da axé-music, nasceram dezenas de bandas que exploravam coreografias rebolativas, tendo como base uma música frenética com letras de apelo sexual. O principal representante desse estilo, definido pejorativamente como “bunda music”, foi o grupo É o Tchan.

O sucesso comercial desses conjuntos, caracterizado por carreiras de curta duração mas de projeção nacional, pode ser explicado por alguns fatos que marcaram fortemente o mercado fonográfico nos anos 1990: a prática do jabá e o aumento do poder dos departamentos de marketing das gravadoras e emissoras de rádio e TV em detrimento dos setores artísticos.

Ao contrário das épocas anteriores, quando a indústria do disco, juntamente com as rádios e televisões, apostaram na diversidade musical, lançando artistas de todos os gêneros (vide o que aconteceu na Época de Ouro ou na era dos festivais), na década de 1990 a MPB praticamente ficou refém de algumas “modas”, que eram exploradas até o limite para, em seguida, serem substituídas por outras. Na virada do século, essa história começou a mudar, e os responsáveis foram os artistas, o público e, principalmente, algumas inovações tecnológicas que revolucionaram a maneira de ouvir/divulgar música.

Elis Regina

Dona de um temperamento explosivo que lhe rendeu o apelido de Pimentinha, Elis Regina (1945-1982) é considerada a maior cantora brasileira da segunda metade do século XX. Tendo se dedicado ao samba em boa parte do repertório de seus discos, Elis resgatou canções de compositores consagrados – Na batucada da vida (Ary Barroso/Luiz Peixoto), É com esse que eu vou (Pedro Caetano), Folha seca (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – e contribuiu para consolidar o samba feito por seus contemporâneos, como Ladeira da preguiça (Gilberto Gil), Mestre-sala dos mares (João Bosco/Aldir Blanc) e Eu, hein, Rosa (João Nogueira/Paulo César Pinheiro).

Marcianos no pagode

Nem mesmo os produtores do filme Marte ataca! (1996) foram capazes de pensar nisso: um pagode tocando no Planeta Vermelho. A idéia foi da brasileira Jacqueline Lyra, engenheira da Nasa. Em 1997, a agência especial norte-americana lançou a missão Mars pathfinder, enviando um robô para explorar Marte. O mecanismo foi programado para ser acionado a partir do som de uma música – e a escolhida por Jacqueline foi o samba Coisinha do pai (Jorge Aragão/Almir Guineto/Luis Carlos da Vila), obra de três compositores do Cacique de Ramos. Dessa forma, o robô da Nasa foi “acordado” com os versos “Ô, coisinha tão bonitinha do pai/ ô, coisinha tão bonitinha do pai”.

O preço do sucesso

Jabá – uma corruptela da palavra jabaculê – é o nome que se dá à prática de oferecimento de dinheiro ou favores a radialistas e programadores de televisão em troca da veiculação de determinadas músicas ou artistas. Mesmo sendo considerado ilegal, por ferir os estatutos que regem as empresas de comunicação brasileiras, o jabá está presente no mercado musical desde os anos 1940 e ainda hoje é praticado.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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