Uma história do samba – parte 13

O samba na era dos festivais

Vem que passa

teu sofrer

se todo mundo sambasse

seria tão fácil viver…

– “Tem mais samba” (Chico Buarque)

A segunda grande fase da música popular brasileira começa com o aparecimento da bossa nova, em 1958, e se estende até meados da década de 1980. Da mesma forma que a Época de Ouro, o novo período de efervescência musical congregou e lançou centenas de cantores, compositores e instrumentistas talentosos. Se, nos anos anteriores, o rádio fora o mais importante veículo de divulgação da música que surgia, a vitrine artística da década de 1960 foi a televisão.

chico buarque mpb4Chico Buarque e o conjunto MPB-4

Lançada oficialmente no Brasil em 1950, a TV teve um processo de implantação lento e levaria mais de dez anos para deslanchar no país. Quando isso aconteceu, por coincidência, uma nova geração de músicos estava aparecendo e precisava ser mostrada. De 1965 a 1972, a música popular foi o principal produto da grade de programação das emissoras, com atrações de sucesso como O fino da bossa, Bossaudade, Jovem Guarda e uma seqüência de festivais de canções, a maior parte delas promovida pela TV Record de São Paulo e a TV Globo do Rio.

O programa pioneiro nesse formato foi o I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, realizado em 1965 pela TV Excelsior, que consagrou a canção Arrastão (Edu Lobo/Vinicius de Moraes), defendida pela jovem cantora gaúcha Elis Regina. Nos anos seguintes, uma série de festivais dominou a cena musical, revelando cantores e compositores do calibre de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Francis Hime, Dori Caymmi, Ivan Lins, Gonzaguinha, Sérgio Ricardo, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Sidney Miller, Jair Rodrigues, Nana Caymmi, Geraldo Vandré, Wilson Simonal, Marcos Valle, os grupos vocais MPB-4 e Quarteto em Cy, entre tantos outros.

Essa geração, herdeira direta da bossa nova, foi responsável por fixar a moderna canção brasileira. É nesse período que se cria a sigla MPB, numa tentativa de se diferenciar o tipo de trabalho que aqueles jovens apresentavam da música popular brasileira considerada tradicional, consolidada na Época de Ouro.

geraldo vandreGeraldo Vandré

Uma característica dos artistas da década de 1960 era sua capacidade para promover diálogos musicais, ao misturar ritmos e gêneros nacionais ou estrangeiros que dariam origem a novos estilos e movimentos estéticos. A influência que os brasileiros receberam das canções de Elvis Presley e dos Beatles resultaria, por exemplo, na Jovem Guarda, movimento que inaugurou a maneira brazuca de se produzir rock and roll e instalou definitivamente as guitarras elétricas por aqui.

Já o Tropicalismo, liderado pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, propôs uma revolução muito mais profunda, na qual as fronteiras culturais deveriam ser demolidas e tudo era permitido. É proibido proibir, cantava Caetano. Dentro da expressão do tropicalismo – um movimento que englobou também o cinema, o teatro e as artes plásticas – elementos que pareciam distintos possuíam o mesmo valor artístico. Assim, na balança musical, o samba, o bolero, o baião, o rock, as canções folclóricas ou os temas eruditos tinham o mesmo peso.

Nem todas essas idéias foram bem recebidas ou assimiladas imediatamente. É preciso lembrar que, desde março de 1964, vigorava no Brasil um regime militar que acabara com o governo democrático e instalara uma ditadura brutal – os partidos políticos dissolveram-se, greves foram proibidas e a censura prévia estava instituída. A situação se agravaria em 1968, a partir do decreto do Ato Institucional nº5 (AI-5), que suspendeu o habeas corpus, anulou os direitos individuais e deu plenos poderes à polícia.

Sufocada pelo governo de repressão, a classe artística acabou sendo levada para o protesto e a contestação. Dentro desse contexto histórico, a música transformou-se em um instrumento de luta política. Alguns compositores, apostando na função social da arte, adotaram um discurso ideológico em suas letras, com o objetivo de alcançar seus ouvintes com mensagens que denunciavam a situação social. Entre canções com temática de protesto podemos citar a toada Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores) (“Vem, vamos embora/ que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora/ não espera acontecer…”), de Geraldo Vandré, e o samba Apesar de você (“Apesar de você/ amanhã há de ser outro dia…”), de Chico Buarque.

Chico foi um dos compositores mais perseguidos pela censura – muitas vezes, bastava constar seu nome sob o título de uma música para que os censores vetassem a obra. Em determinado momento, cansado de ter suas letras proibidas, ele resolveu apelar para pseudônimos, assinando certas músicas como Julinho da Adelaide ou Leonel Paiva, a exemplo do irônico samba Acorda amor:

Acorda amor

Eu tive um pesadelo agora

Sonhei que tinha gente lá fora

Batendo no portão, que aflição

Era a dura, numa muito escura viatura

Minha nossa santa criatura

Chame, chame, chame lá

Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Quando o AI-5 foi decretado, intensificando o cerco aos artistas, muitos deles foram obrigados ou não tiveram outra opção senão deixar o país, o que aconteceu com o próprio Chico Buarque, Geraldo Vandré e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil. Preparando-se para o exílio em Londres, Gil escreveu o samba Aquele abraço (“Alô, moça da favela/ aquele abraço!/ todo mundo da Portela/ aquele abraço!…/ meu caminho pelo mundo/ eu mesmo traço/ que a Bahia já me deu/ régua e compasso…”), trilha sonora de sua despedida.

O samba permanecia como matriz da música popular brasileira, pairando acima de qualquer influência estética ou ideológica. Em 1968, a TV Record resolveu promover um festival dedicado inteiramente ao gênero. A Bienal do Samba, embora não tenha alcançado a repercussão de outros festivais, foi um sucesso em termos de criação musical.

O violonista Baden Powell, que anos antes lançara com Vinicius de Moraes o antológico LP Afro-sambas, venceu a Bienal ao apresentar Lapinha, música feita em parceria com o letrista Paulo César Pinheiro com base em um tema folclórico da Bahia. O samba foi defendido por Elis Regina. Na segunda colocação, ficou Bom tempo (Chico Buarque), interpretado pelo autor; e, em terceiro, Pressentimento (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho), com Marília Medalha.

Elis, Baden e Paulinho Pinheiro vencem a Bienal do Samba

A Bienal também foi importante por conseguir reunir sambistas de diversas gerações. O festival contou com a presença de compositores que haviam sido freqüentadores da casa de Tia Ciata (Donga, João da Baiana e Pixinguinha), outros que tinham se destacado na Época de Ouro (Ismael Silva, Sinval Silva, Ataulfo Alves, Herivelto Martins), jovens projetados pelo Zicartola (Elton Medeiros e Paulinho da Viola) e até mesmo dois compositores paulistas que cada vez mais ganhavam o reconhecimento e a admiração dos cariocas: Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini.

A era dos festivais de música chegou ao fim em 1972, com o VII Festival Internacional da Canção (FIC), realizado no ginásio do Maracanãzinho, no Rio. Depois, eventos similares continuaram a ser promovidos, mas a fórmula já havia se esgotado e sua força nunca mais foi a mesma. Por coincidência, o último festival clássico encerrou o ciclo com chave de ouro, consagrando um compositor que também inovara o jeito de se fazer samba: Jorge Benjor

Na década de 1970, passada a grande fase dos festivais, o prestígio do samba deveu-se, principalmente, à atuação das cantoras Alcione, Clara Nunes e Beth Carvalho, e com grande contribuição dos compositores-cantores João Nogueira, Nei Lopes, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira e Monarco.

E, no momento em que os anos 1980 se anunciavam, com aditadura militar começando a ruir, foi na forma de samba que se cantou o novo tempo.

Tropicalismo

Diferentemente da bossa nova, que formatou uma maneira original de compor e interpretar, a Tropicália nunca teve a intenção de lançar um estilo musical. O objetivo do movimento liderado pelo cantor e compositor baiano Caetano Veloso foi impor uma nova atitude artística na cena cultura brasileira. Dialogando com o cinema, artes plásticas, teatro e, principalmente, a literatura modernista de Oswald de Andrade, o Tropicalismo revolucionou a música popular brasileira durante o ano de 1968. Ao lado de Caetano, participaram do movimento os compositores Gilberto Gil e Tom Zé, os letristas Torquato Neto e Capinam, o maestro e arranjador Rogério Duprat, o trio Mutantes e as cantoras Gal Costa e Nara Leão.

Os Afro-sambas

Durante uma temporada em Salvador, no ano de 1962, o violonista fluminense Baden Powell aprofundou-se na cultura afro-brasileira, ao freqüentar terreiros de candomblé e rodas de capoeira. Admirado com a musicalidade dos cantos e o ritmo dos tambores, iniciou um trabalho de releitura criativa daqueles sons em seu instrumento.

Um disco clássico

De volta ao Rio de Janeiro, Baden contagiou o parceiro Vinicius de Moraes com sua empolgação e, pouco tempo depois, a dupla compôs uma série de músicas impregnadas de negritude e misticismo que ficaram conhecidas como afro-sambas, lançadas num disco homônimo em 1966. A primeira das canções foi Berimbau, na qual o violão de Baden imita a sonoridade do instrumento usado na capoeira. Na seqüência vieram outras, também antológicas, como Canto de Ossanha, Bocoché e Canto de Xangô.

A inovação poética promovida por Vinicius nos afro-sambas foi à altura da invenção musical de seu parceiro. Nas letras que escreveu para a série, o poeta explorou o universo afro-brasileiro utilizando palavras de línguas africanas e expressões do candomblé.

Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini

Considerados os principais representantes do samba urbano de São Paulo, Adoniran Barbosa (1910-1982) e Paulo Vanzolini (1924-) possuem carreiras e obras distintas.

Adoniran Barbosa

O primeiro foi um artista multimídia, atuando em rádio, cinema e televisão como ator, cantor e humorista. Filho de imigrantes italianos, Adoniran destacava-se pelo sotaque peculiar, uma mistura do linguajar caipira com o paulistano italianado. Suas músicas exploravam o universo das camadas populares, e o primeiro sucesso de sua autoria foi Saudosa maloca, gravada por ele em 1951. No entanto, o samba que o projetou nacionalmente foi Trem das onze (“Não posso ficar/ nem mais um minuto/ com você/ sinto muito amor/ mas não pode ser…”), que ultrapassou as fronteiras de São Paulo e, fato inédito, conquistou o carnaval carioca de 1965. Outros clássicos que levam sua assinatura são Iracema, Samba do Arnesto (em parceria com Alocin) e Tiro ao álvaro (com Osvaldo Moles).

Paulo Vanzolini

Paulo Vanzolini, por sua vez, dividiu-se entre o samba e a zoologia, sendo reconhecido como mestre em ambos os assuntos. Diplomado doutor em Harvard, Vanzolini comandou o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) por mais de 30 anos, conquistando a admiração da comunidade científica internacional. Paralelamente às suas pesquisas, construiu uma carreira não menos elogiada como compositor. Mesmo sem saber tocar nenhum instrumento, Vanzolini escreveu sucessos como Volta por cima, Ronda e Praça Clóvis.

Jorge Benjor

Quando a música Fio Maravilha, interpretada pela cantora Maria Alcina, levantou a platéia do VII FIC, seu autor, Jorge Ben, já contabilizava uma década de carreira. Transitando inicialmente entre a bossa nova, a jovem guarda e a influência da música negra norte-americana, o compositor conseguiu criar um estilo próprio e original. Suas músicas eram marcadas por estruturas melódico-harmônicas simples mas com um balanço rítmico envolvente, sustentado por uma forte percussão e pelo toque diferenciado de seu violão (posteriormente, ele trocou o instrumento pela guitarra). Apostando em letras simples, às vezes com versos sem sentido, Jorge Ben utilizava as palavras mais com uma função rítmica do que poética.

Jorge Ben, violão, guitarra, samba, rock

Seu primeiro disco foi lançado em 1963 e intitulado de Samba esquema novo, do qual podemos pinçar dois sucessos atemporais: Mas, que nada e Chove chuva, classificados como sambas-maracatu. No final da década de 1960, ao unir-se com os percussionistas do Trio Mocotó, Jorge Ben, hoje Benjor, ajudaria a criar o samba-rock, estilo que seria resgatado por muitas bandas no século XXI. Outra derivação do samba surgida a partir da mistura com a música negra norte-americana seria o samba-soul, do qual o destaque é o cantor e compositor Tim Maia.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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