Uma história do samba – parte 12

No morro e no asfalto

Se o dia nasce, renasce o samba

Se o dia morre, revive o samba

– “Filosofia do samba” (Candeia)

Em uma noite de meados da década de 1950, ao mesmo tempo em que a bossa nova estava sendo gerada por Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto e coadjuvantes, o jornalista Sérgio Porto levou um susto ao encontrar o compositor Cartola trabalhando como lavador carros numa garagem em Ipanema, no Rio de Janeiro. O motivo da surpresa é que o sambista andava sumido do cenário artístico há anos, e muita gente até duvidava que estivesse vivo.

Angenor de Oliveira, o Cartola

Um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, Cartola (1908-1980), cujo nome de batismo era Angenor de Oliveira, fora um personagem ativo da cultura carioca entre as décadas de 1930 e 1940. Desfilava com a escola nos dias de carnaval, atuava com certa freqüência em programas de rádio e suas músicas eram gravadas pelas principais vozes da época, como Francisco Alves e Carmen Miranda. Porém, em 1949, após um período de trevas em que contraiu meningite e perdeu a mulher, fulminada por um ataque cardíaco, Cartola decidiu abandonar o Morro da Mangueira e a música. Desiludido da vida, entregou-se à bebida e a amores infelizes que o afastaram dos amigos e da arte. Após certo tempo mergulhado naquele poço, foi trazido à tona por Euzébia do Nascimento, Dona Zica, o anjo-da-guarda com quem Cartola se casaria. Ela conseguiu que ele voltasse a trabalhar, mas o sambista não se fixava em nenhum dos novos ofícios que tentava – servente, guarda em repartição pública e lavador de carros, emprego que ocupava quando Sérgio Porto o reencontrou.

O jornalista, um dos mais famosos da época, bem que se esforçou para fazer Cartola voltar à música, mas seu prestígio entre radialistas e donos de gravadoras de nada serviu. Frente à revolução bossanovista, o compositor era considerado antigo e ultrapassado. Assim, em princípios dos anos 1960, restou a Cartola e Dona Zica irem morar de favor na sede da Associação das Escolas de Samba do Rio (EAS), no centro da cidade. Ali, o casal passou a receber a visita de amigos de variadas idades e classes sociais, muitos deles compositores, que apareciam para beber, conversar, fazer música e degustar as iguarias preparadas por Dona Zica. Em uma dessas reuniões, o empresário Eugênio Agostini, amigo de Nuno Veloso, parceiro de Cartola, propôs a criação de uma casa de samba, um misto de restaurante e boteco que tivesse o mesmo clima animado dos encontros da EAS.

Assim, foi inaugurado o Zicartola, estabelecimento que em pouco mais de dois anos de atividade (1963-1965) foi o responsável por impulsionar a renovação e o fortalecimento do samba. A programação musical da casa era invejável. A seleção de artistas fixos, que se apresentava regularmente, contava com Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Leléu, Zagaia, Padeirinho, João do Vale, Geraldo das Neves e, é claro, o próprio Cartola. Também havia lugar para novos nomes, como por exemplo, Paulinho da Viola, que recebeu ali seu primeiro cachê como profissional.

Roda de samba no Zicartola, com Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Paulinho da Viola e Zé Kéti. À esqueda, embaixo, o compositor Hermínio Bello de Carvalho

Rapidamente, o Zicartola foi transformado pela classe média da Zona Sul em ponto de encontro da moda e, a cada noite, atraia centenas de fregueses interessados em se aproximar da cultura popular. O local também começou a reunir pessoal do Cinema Novo e os artistas de esquerda ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE). Aquelas noitadas inspirariam dois importantes espetáculos que marcaram a cena musical brasileira da época: a peça Opinião e o show Rosa de ouro.

Paralelamente à renovação promovida pelo Zicartola, o samba mostrava fôlego revigorado também nas escolas, que tomaram impulso e conquistaram a hegemonia do carnaval carioca. Os desfiles cresceram, tornaram-se mais organizados e de maior apelo popular. Além disso, o atrativo musical melhorou. A partir do final da década de 1950, com a decadência da marchinha e do samba tradicional como trilha sonora da folia, o samba-enredo se desenvolveu e ocupou o espaço deixado pelas outras modalidades.

O maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos é Silas de Oliveira (1916-1972), autor de músicas inspiradas que contribuíram para definir um padrão para o estilo. Sua assinatura está em clássicos como Aquarela brasileira e Heróis da liberdade (este em parceria com Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira), escritos para sua escola, o Império Serrano. Silas também é reconhecido por ter ajudado a revelar Dona Ivone Lara, a primeira mulher a conseguir vencer o machismo vigente nas escolas e se tornar autora de samba-enredo. Juntos, Silas, Dona Ivone e o parceiro Bacalhau compuseram Os cinco bailes da história do Rio, em 1965. Outros importantes autores são Anescarzinho do Salgueiro, Martinho da Vila e Zuzuca (também do Salgueiro) – para ficarmos apenas em três nomes.

Sérgio Porto

Não estaremos exagerando ao afirmar que o jornalista, escritor e radialista Sérgio Porto (1923-1968) foi o precursor do estilo de humor crítico que hoje faz sucesso em programas televisivos como Casseta & Planeta e CQC. Observador atento e afiado do cotidiano brasileiro, seus textos eram espirituosos e inteligentes. Criador do personagem Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo sob o qual assinou diversas crônicas, Sérgio foi o inventor do Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), produzindo histórias e piadas que criticavam os costumes vigentes.

Amante e profundo conhecedor da música, principalmente jazz e samba, conquistou sucesso até como compositor, ao lançar o politicamente incorreto Samba do crioulo doido, em 1968. A letra da música, uma sátira dos samba-enredo das escolas, mistura fatos históricos e personagens de épocas diferentes, com versos como esse: “Foi em Diamantina/ onde nasceu JK/ que a princesa Leopoldina/ arresolveu se casá/ mas a Chica da Silva/ tinha outros pretendentes/ e obrigou a princesa/ a se casá com Tiradentes…”.

Musicais Rosa de ouro e Opinião

Obra de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), Paulo Pontes e Armando Costa, Opinião inovou o formato de espetáculo musical ao estrear em dezembro de 1964, no Teatro de Arena, em Copacabana. Sob direção de Augusto Boal, a peça misturava a linguagem de show com encenação teatral, trazendo no elenco os cantores-compositores Zé Kéti e João do Vale e a cantora Nara Leão (mais tarde substituída por Maria Bethânia).

Intercalando canções com textos interpretados, Opinião narrava o cotidiano brasileiro, com os atores-cantores falando sobre o país – “Em 1950 havia dois milhões de nordestinos vivendo fora de seus estados natais…” – ou a respeito de suas histórias pessoais: “Meu nome é João Batista do Vale. Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou é Ribamar. Eu saí Batista”, apresentava-se João do Vale. Devido à sua postura crítica, tornou-se o primeiro espetáculo de resistência à ditadura militar.

João do Vale, Zé Kéti e Nara Leão em cena no espetáculo Opinião, em 1964

Já o Rosa de ouro, lançado em março de 1965, no Teatro Jovem, alcançou sucesso semelhante. Concebido pelo produtor, compositor e poeta Hermínio Bello de Carvalho, o show sambístico promoveu o retorno aos palcos da grande dama do Teatro de Revista, Aracy Cortes, acompanhada por um grupo de cantores-compositores formado por Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro.

O grande destaque do Rosa de ouro, no entanto, foi Clementina de Jesus, uma senhora de 64 anos que estreava profissionalmente como cantora – até então ela trabalhara como empregada doméstica. Recém-descoberta por Hermínio, Clementina arrancava entusiasmados aplausos da platéia ao entoar com sua voz poderosa os belos sambas e cantos africanos de seu repertório.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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