Uma história do samba – parte 11

Isso é bossa nova

Eis aqui este sambinha

Feito de uma nota só

Outras notas vão entrar

Mas a base é uma só

– “Samba de uma nota só” (Newton Mendonça/Tom Jobim)

Faça um exercício de imaginação e coloque-se no lugar de um jovem de classe média que vivia no Brasil em 1958. Suponhamos que você seja um(a) garoto(a) de Copacabana, no Rio de Janeiro, que tem a sorte de freqüentar uma das praias mais bonitas do mundo, onde costuma se bronzear, encontrar os amigos e namorar.

Praia de Copacabana, década de 1950

A sensação de que a vida é boa aumenta quando você percebe que o país passa por um período de intensa euforia e otimismo. Graças aos dribles mágicos de Pelé e Garrincha, a seleção de futebol acaba de conquistar a Copa do Mundo pela primeira vez, e o governo do presidente Juscelino Kubitschek, sob o slogan desenvolvimentista “50 anos em 5”, promete um crescimento econômico a jato, que colocará a nação nos trilhos da modernidade. JK também anuncia a construção de uma nova capital, Brasília, para abrigar o outro Brasil que está nascendo.

Em resumo, tudo é uma novidade empolgante. Até mesmo a música que você escuta no rádio tem um jeito, uma bossa diferente – e não é uma bossa qualquer, é bossa nova. Além disso, os principais responsáveis por esse som são jovens como você.

Após os efervescentes acontecimentos da Época de Ouro, a música popular brasileira enfrentou um período de transição, entre 1946 e 1957, no qual houve uma grande popularização dos ritmos nordestinos (principalmente o estouro do baião, implantado pelo sanfoneiro e compositor Luiz Gonzaga) e o sucesso dos sambas-canções românticos (com destaque para aqueles compostos por Antônio Maria e interpretados pela cantora Nora Ney).

O estilo de samba predominante naquele no período possuía um romantismo que carregava demais as tintas na tristeza. Não à toa, eram chamados de sambas de fossa, com letras que diziam algo como: “Ouça/ vá viver sua vida com outro bem/ Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém” (Ouça, de Maysa), ou então: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama de meu amor” (Ninguém me quer, de Antônio Maria). Você há de convir que esse tipo de música não era a trilha sonora ideal para o Brasil que se anunciava no final da década de 1950. Então, a bossa nova surgiu e a história mudou.

No entanto, o novo gênero, ou movimento musical, como alguns preferem chamá-lo, não apareceu de uma hora para outra. Sua elaboração foi um processo que teve início anos antes. Elementos característicos da bossa nova, como a sofisticação harmônica das músicas e o jeito contido de interpretá-las, já estavam presentes no trabalho de vários artistas de gerações anteriores, a exemplo das composições de Custódio Mesquita, Dorival Caymmi, Garoto e Valzinho, ou na maneira de interpretar de Mário Reis.

Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Outra característica da bossa nova era sua aproximação com o jazz, gênero norte-americano que já influenciava a música popular brasileira há algum tempo, marcando tanto a carreira de artistas mais velhos, como o cantor e pianista Dick Farney, quanto dos mais jovens, como o compositor Johnny Alf. Ambos, apesar dos codinomes artísticos, eram brasileiríssimos, nascidos e criados no Rio de Janeiro. O nome de batismo de Dick é Farnésio Dutra, e Johnny chama-se João Alfredo.

O trio de artistas responsável por unir a herança musical da Época de Ouro a novas influências, condensando tudo na forma de bossa nova foi formado por Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Quando os três se juntaram, mudaram os rumos da música popular brasileira – e isso aconteceu em 1958, na gravação do LP Canção do amor demais, da cantora Elizeth Cardoso. O disco é considerado marco-zero da bossa nova porque reuniu pela primeira vez a “batida diferente” do violão de João e as parcerias de Tom e Vinicius, como Chega de saudade:

Mas se ela voltar, se ela voltar

que coisa linda, que coisa louca

pois há menos peixinhos a nadar no mar

do que os beijinhos que eu darei na sua boca…

Essa música daria título também ao primeiro disco solo de João Gilberto, lançado logo em seguida. No álbum, a revolução artística que ele promovia ficava ainda mais evidente: voz e violão pareciam uma coisa só, elementos indissociáveis. Além disso, ao contrário de seu ídolo Orlando Silva, João mostrava uma interpretação contida, cantando a nota exata (sem o uso do vibrato), o que o aproximava dos artistas do cool jazz.

Rapidamente, a bossa nova ganhou uma legião de fãs, a maioria jovens, que se identificaram com a novidade. Uma geração de músicos que vinha surgindo – entre eles, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão – também se agregou ao movimento. De repente, do carro à geladeira, tudo que exalava modernidade era chamado de bossa nova – até Juscelino Kubitschek ficou conhecido como “o presidente bossa nova”.

Ao mesmo tempo, a novidade causou estranhamento, principalmente entre os defensores do samba “autêntico”, que consideravam a proposta dos bossanovistas uma descaracterização do gênero, diluidora das formas tradicionais. A resposta aos críticos veio em forma de música:

Se você insiste em classificar

Meu comportamento de antimusical

Eu, mesmo mentindo, devo argumentar

Que isto é bossa nova

Que isto é muito natural

– “Desafinado” (Tom Jobim/Newton Mendonça)

Assimilada pelos artistas do jazz a partir da década de 1960, a bossa nova colocou a música popular brasileira definitivamente no cenário internacional. Ainda hoje, o samba Garota de Ipanema (“Olha/ que coisa mais linda/ mais cheia de graça…”), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, é uma das músicas mais tocadas no planeta. Certo dia, ao saber por uma pesquisa que sua composição só perdia em número de execuções para as canções dos Beatles, Jobim brincou: “Mas eles são quatro e cantam em inglês…”.

Maysa maysa

A biografia de Maysa (1936-1977) caberia muito bem na história do rock and roll, afinal ela teve uma vida conturbada com brigas amorosas, crises de depressão, de alcoolismo, que terminou precocemente em um acidente automobilístico. Ela até chegou a gravar – e com sucesso – a canção Light my fire, da banda The Doors. No entanto, a praia da cantora e compositora brasileira eram as chamadas músicas de fossa, com as quais ela se consagrou. Sua história foi dramatizada na minissérie Maysa – Quando fala o coração, exibida pela TV Globo em 2009.

Cool jazz

O cool jazz é um estilo que surgiu no final da década de 1940, revolucionando o jazz e deixando o gênero mais contido e intimista. Ao contrário de seu antecessor, o bebop (estilo marcado por músicas de muitas notas e grande virtuosismo dos instrumentistas), o cool jazz se destaca por ser mais leve e romântico – e não exatamente “frio”, como a palavra “cool” pode dar a entender. Outra característica importante é a ausência do vibrato (nome técnico que se dá à vibração da nota final de uma frase musical).

Miles Davis

O disco que é considerado inaugural do estilo intitula-se Birth of the cool, lançado pelo trompetista e compositor Miles Davis, em 1949. Além de Davis, outros nomes importantes ajudaram a consolidar o cool, entre eles, os saxofonistas Lester Young e Gerry Mulligan e o trompetista e cantor Chet Baker.

Durante a década de 1950, o cool daria origem a um estilo derivado e semelhante denominado west coast jazz, que também influenciou bastante os brasileiros da bossa nova.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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