Uma história do samba – parte 10

Os anos dourados da música (II)

O gênio do período conhecido como Época de Ouro chama-se Noel Rosa (1910-1937). Apesar de uma vida curta – ele morreu com 26 anos –, o filho de uma família de classe média, nascido no bairro carioca de Vila Isabel, revolucionou a música popular (e o samba em particular) com as cerca de 250 que criou. Como músico, Noel é admirado pelas melodias e harmonias que inventou, porém, suas letras foram responsáveis por estabelecer um novo padrão poético na canção popular.

Noel Rosa, de Vila Isabel

Ao mesmo tempo em que escreveu versos líricos, sentimentais, como em Último desejo (“Perto de você me calo/ tudo penso/ nada falo/ tenho medo de chorar…”), Noel, atento observador do cotidiano e da malandragem carioca, compunha crônicas em forma de samba, a exemplo de Conversa de botequim (“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa/ uma boa média que não seja requentada…”) e “Com que roupa” (“Meu paletó virou estopa/ e eu pergunto, com que roupa?/ com que roupa eu vou/ ao samba que você me convidou?…”)

Embora não fosse sua intenção apresentar-se como modernista, conforme explica o historiador Jairo Severiano, é possível identificar na poesia do sambista elementos que o aproximavam do movimento lançado na Semana de Arte de 1922, como o poema-piada (“Mu… mu… mulher/ em mim fi… fizeste um estrago/ eu de nervoso/ esto… tou fi… ficando gago…”), da música Gago apaixonado, e o nonsense (“E o meu titio/ faz vergonha a todo instante/ foi ao circo com fastio/ e engoliu o elefante…”), da marcha Prato fundo, feita em parceria com João de Barro.

Durante a Época de Ouro, além de Noel Rosa, outros compositores extraordinários se aprofundaram no samba, a exemplo de Lamartine Babo, Alcebíades Barcelos (o Bide, outro bamba do Estácio), Custódio Mesquita, Assis Valente, Vadico (parceiro constante de Noel), Ataulfo Alves, Herivelto Martins, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira e Wilson Batista.

Mãos ao alto, Morengueira!

Foi o talento desses criadores – vindos das mais diferentes classes sociais – que deu novos contornos ao samba, fazendo com que o gênero evoluísse. Nesse processo surge o samba de breque, estilo lançado pelo cantor Luís Barbosa que foi aprimorado e lapidado pelo compositor e intérprete Moreira da Silva, também conhecido pelo codinome de Kid Morengueira. Trata-se de uma modalidade de samba pitoresca, na qual o cantor faz pausas (breques) em determinados momentos da música e as preenche com pequenos discursos, comentários, piadas. Um famoso samba nesse estilo é Acertei no milhar (Wilson Batista/Geraldo Pereira), a história de um pobretão que sonha ter ficado milionário ao ganhar uma bolada no jogo do bicho:

– Etelvina!

– O que é, Morengueira?

Acertei no milhar

Ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar

Você dê toda roupa velha aos pobres

E a mobília podemos quebrar

(breque)

Isso é pra já, vamos quebrar. Pam, pam, bum…

Outro estilo característico daquele momento é o samba exaltação, surgido na segunda fase da Época de Ouro, período que coincide com o Estado Novo (1937-1945), regime antidemocrático instalado pelo então presidente Getúlio Vargas. Ao mesmo tempo em que promoveu no país avanços econômicos e industriais, bem como a implantação de um legislação trabalhista (salário-mínimo, auxílio-maternidade etc.), o Estado Novo ocasionou um retrocesso no que diz respeito à liberdade de expressão e aos valores democráticos.

Com um discurso populista, tendo como pretexto a paz social e a segurança nacional, Vargas montou um poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP, para impor suas idéias e controlar as informações por meio de uma forte censura. Em relação à cultura, sua postura foi contraditória. O governo mandou para a cadeia os escritores Graciliano Ramos e Jorge Amado, no entanto, no campo da música popular, promoveu a divulgação de centenas de artistas. O próprio Vargas foi amigo pessoal de muitos deles, a exemplo do compositor Herivelto Martins e das cantoras Linda e Dircinha Batista.

A Rádio Nacional, inaugurada no Rio de Janeiro em 1936, foi adquirida pelo governo Vargas e transformou-se na principal estação do país. Com um alto investimento, que permitia à emissora ostentar um elenco admirável de cantores, maestros, locutores e músicos, a Rádio Nacional teve fundamental importância para a consolidação da Época de Ouro.

Porém, nem tudo que os compositores criavam era aceito pelo pensamento estado-novista. O DIP chegou a promover uma campanha com o intuito de “purificar” o samba, tornando proibidas todas as músicas que tivessem a malandragem como tema. Por outro lado, se as letras de determinados sambas fossem convenientes à ideologia do regime, acabavam cooptadas e transformadas em propaganda oficial.

Ary Barroso

Foi o que ocorreu, em 1939, quando Ary Barroso lançou Aquarela do Brasil, inaugurando a modalidade samba-exaltação. Embora não fosse a intenção do compositor – Ary era antigetulista –, o sucesso da música serviu como banquete para um governo que estava faminto para provar que o brasileiro era um povo próspero e feliz.

Brasil!

Meu Brasil brasileiro

Meu mulato inzoneiro

Vou cantar-te nos meus versos

O Brasil samba que dá

Bamboleio que faz gingar

O Brasil do meu amor

Terra de Nosso Senhor…

A esse samba seguiram-se muitos outros, com a mesma empolgação patriótica: Brasil Pandeiro (“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor…”), de Assis Valente, e Canta, Brasil (“Na beleza desse céu/ onde o azul é mais azul/ na aquarela do Brasil/ Eu cantei de norte a sul…”), da dupla Alcir Pires Vermelho e David Nasser, são exemplos.

No período, o mundo enfrentava a Segunda Guerra (1939-1945). Getúlio Vargas, que inicialmente estivera coligado às nações do Eixo (encabeçadas pela Alemanha nazista de Adolf Hitler), agora bandeava-se para o lado dos países Aliados (liderados pelos Estados Unidos). É a época da chamada Política de Boa Vizinhança, implementada pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, que procurava estabelecer um melhor relacionamento com os países da América Latina, na tentativa de minimizar a influência européia (principalmente do poder alemão) na região. Com o troca-troca cultural promovido por aquela política, o samba extrapolou suas fronteiras. A malandragem ganhou os traços de Walt Disney, surgindo assim o personagem Zé Carioca, e Carmen Miranda, que já fazia sucesso nos EUA, ganhou fama mundial.

Quando a Segunda Guerra chegou ao fim, terminava também o Estado Novo e a Época de Ouro da música popular. Mas o samba, como sempre, já não tinha hora para acabar. Mais do que nunca, podia ser identificado como a cara do Brasil.

Malandragem

O malandro é uma espécie de entidade do samba. É aquele indivíduo que pode ser descrito como matreiro, safo, astuto, esperto. Figuras assim pintaram nas ruas do Rio de Janeiro, principalmente no efervescente bairro da Lapa, a partir da década de 1920, como um dos estereótipos para o negro sambista subempregado ou desempregado, “situado entre a marginalidade artística e a perspectiva de integração social”, como informa o estudioso Nei Lopes.

Já o folclorista Luis da Câmara Cascudo nos ensina que a origem do malandro estaria nos filhos dos escravos urbanos alforriados, os quais, rejeitando o trabalho formal, com horários rígidos e obrigações definidas, procuravam representar, após o fim da ordem escravista, o papel do branco dominador.

O malandro Zé Carioca, de Walt Disney

A malandragem serviu de tema para sambas de variados compositores, como Chico Buarque, que escreveu uma “Homenagem ao malandro”:

Eu fui fazer um samba em homenagem

à nata da malandragem

que conheço de outros carnavais

eu fui à Lapa e perdi a viagem,

que aquela tal malandragem

não existe mais…

O artista que melhor representou o malandro foi Moreira da Silva. Usando a indumentária típica do personagem – terno de linho e sapatos brancos, chapéu panamá na cabeça – Moreira da Silva assumiu o estereótipo e o transformou em atitude estética.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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