Uma história do samba – parte 9

Os anos dourados da música (I)

Quem não gosta de samba

Bom sujeito não é

É ruim da cabeça

Ou doente do pé

– “O samba da minha terra” (Dorival Caymmi)

A primeira grande fase da música popular brasileira aconteceu entre os anos 1929 e 1945, período chamado de Época de Ouro. E não foi à toa que recebeu esse nome pomposo, afinal é a fase em que a música popular se profissionaliza e se consolida, estabelecendo os padrões que passaram a vigorar por todo o século XX.

Alguns fatores contribuíram para que Época de Ouro ocorresse, dentre os quais podemos citar três: a herança musical dos períodos anteriores, com o surgimento de diversos gêneros (o principal deles, o samba); a chegada ao Brasil do cinema falado e do rádio, mais a evolução tecnológica dos sistemas de gravação de discos; e, principalmente, o aparecimento de um número considerável de talentosos cantores, compositores e instrumentistas de uma mesma geração.

Programa Paulo Gracindo_Radio NacionalPúblico lota o auditório da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro

A Época de Ouro também se destaca por abrigar novos estilos e gêneros, como por exemplo, a canção (herdeira da modinha), o foxe (nascido da influência do fox-trot norte-americano) e a toada (canção de contorno mais interiorano). No entanto, o que prevalece mesmo é o samba, fato que ficou claro em pesquisa feita pelo historiador Jairo Severiano. De 1931 a 1940, as gravadoras lançaram em disco 6.706 músicas, das quais 2.176 eram sambas, isto é, 32,45% de todo o repertório gravado. A supremacia era tão grande que só havia espaço para outro gênero expressivo, a marchinha. Juntos, eles dominavam mais da metade do repertório musical brasileiro.

Com a conquista do gosto popular, o samba foi desenvolvendo-se durante a Época de Ouro e, nesse processo, mesclou-se a outros ritmos, originando novos estilos, como o samba-choro, o samba-sertanejo e o samba-canção, o mais importante deles. A produção era tão intensa que os artistas chegavam a lançar um disco por semana.

Na época, por causa de uma limitação técnica, os álbuns continham apenas duas músicas, uma de cada lado do disco, que rodavam na vitrola a uma velocidade de 78 rotações por minuto. Os discos de 78 rpm, como eram conhecidos, foram fabricados no Brasil até a década de 1960, quando foram substituídos definitivamente pelos long plays (LPs), os famosos discos de vinil. Estes, por sua vez, cairiam em desuso nos anos 1990, a partir do surgimento do CD.

Quem dava voz, literalmente, àquela avalanche de sambas era uma seleção de cantores de primeira. Uns egressos da fase áurea do Teatro de Revista, outros iniciando a carreira no alvorecer da Época de Ouro, dezenas de intérpretes contribuíram para dar uma identidade à música popular brasileira. Entre os grandes, todos cantavam samba – com a exceção de Vicente Celestino (1894-1968), mais dedicado à canção romântica.

Mário Reis e Carmen Miranda

O primeiro cantor a se destacar foi Mário Reis (1907-1981), um jovem carioca grã-fino que aproveitou as vantagens oferecidas pela gravação eletromagnética e criou um novo padrão de interpretação, mais coloquial. Até então, as grandes vozes brasileiras apresentavam uma forte influência do bel-canto italiano, o que deixava a interpretação muito “quadrada”, mais condizente com a ópera do que com a canção popular.

Quando apareceram os microfones e as caixas de amplificação, Mário Reis percebeu que já não era mais preciso ter uma voz potente ou se esgoelar para ser ouvido pela platéia. Apostando que a forma certa de cantar exigia uma aproximação com a língua falada, ele passou a “dizer” as letras da músicas em vez de berrá-las, inventando um estilo que, quase duas décadas mais tarde, seria percebido na bossa nova de João Gilberto.

A leveza e elegância da interpretação de Mário Reis ajudaram a trazer o samba para mais perto da alta sociedade, de onde o rapaz havia saído. Também contribuiu para essa aproximação o fato de o cantor ser ex-aluno de Sinhô e ter muito contato com os bambas do Estácio, como Ismael Silva e Nilton Bastos. Músicas desses compositores fizeram bastante sucesso ao serem lançadas por Mário Reis. Uma delas foi Se você jurar.

Se você jurar

Que me tem amor

Eu posso me regenerar

Mas se é para fingir, mulher,

A orgia assim não vou deixar

– “Se você jurar” (Ismael Silva/Nilton Bastos/Francisco Alves)

Outro intérprete que logo percebeu o talento em potencial dos sambistas do Estácio e arredores foi Francisco Alves, que figura como compositor do citado Se você jurar porque comprou a parceria de Ismael Silva e Nilton Bastos. Essa, aliás, era uma prática muito comum numa época em que o amadorismo ainda imperava entre os artistas. Principalmente aqueles de origem mais humilde, que, sem ter noção do valor real de suas músicas, vendiam parcerias ou até mesmo o samba inteiro por qualquer trocado. E se o interessado fosse Francisco Alves, fechavam o negócio com muito gosto, uma vez que o sonho de qualquer autor era ser gravado pelo Rei da Voz.

Chico Viola, o Rei da Voz

Nascido no Rio, em 1898, filho de portugueses, Francisco Alves foi o cantor mais famoso de seu tempo, com uma carreira que revelava o retrato do panorama musical brasileiro do período. Seu repertório era um cardápio para todos os paladares, abrangendo da canção romântica ao samba e do foxe às marchinhas carnavalescas. Num intervalo de cinco anos (1927-1931), chegou a lançar o equivalente a 41 LPs, ou seja, uma média de oito discos por ano, marca que jamais foi alcançada por qualquer outro artista, de acordo com o historiador Jairo Severiano. Francisco Alves, também conhecido por Chico Viola, teve a carreira interrompida com sua morte, em 1952, num acidente automobilístico na rodovia Rio-São Paulo que comoveu o país.

Na lista dos principais intérpretes da Época de Ouro também não pode faltar Orlando Silva (1915-1978), que possuía uma potência vocal similar à de Chico Alves aliada à uma capacidade de interpretação sem precedentes. Nascido e criado no subúrbio carioca do Engenho de Dentro, Orlando passou por uma infância de extrema pobreza e foi obrigado a trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da família. Enfrentou diversos pequenos empregos até que, incentivado pelos irmãos e amigos, fãs de suas cantorias caseiras, arriscou-se num teste de rádio.

orlando-silvaOrlando silva, o Cantor das Multidões

A primeira pessoa de renome a ouvir Orlando foi o compositor Bororó, autor do samba Da cor do pecado (“Este corpo moreno/ cheiroso, gostoso/ que você tem/ é um corpo delgado/ da cor do pecado/ que faz tão bem…”). Empolgado com o que ouviu, Bororó encaminhou o jovem para Francisco Alves, que o lançou num programa de rádio. A partir daí a carreira de Orlando Silva foi meteórica e dedicada principalmente à interpretação de sambas, valsas, canções e música carnavalesca. De 1937 a 1942, ele conquistou o auge de seu sucesso, ultrapassando em popularidade até mesmo seu descobridor, Chico Alves. Arrastando milhares de admiradores por onde passava, Orlando fazia jus ao slogan pelo qual ficou conhecido: o Cantor das Multidões.

No auge da fama, no entanto, ele entrou num processo de autodestruição e colocou tudo a perder. Na vida pessoal, vivia um romance conturbado. No trabalho, começou a tratar os compromissos profissionais com desleixo e abandonou sua gravadora. Logo em seguida, entregou-se à morfina e ao álcool. Quando conseguiu entrar nos eixos novamente era tarde demais: sua voz havia perdido o brilho e Orlando passaria o restante da vida na sombra de si mesmo.

Outro grande cantor dessa época foi Sílvio Caldas. Também carioca, do bairro de São Cristóvão, ele possuía uma bela voz, mas de pequena extensão e pouca força, características que eram compensadas por um estilo de interpretação ímpar.

O faceiro Silvio Caldas

Sabia dosar técnica e emoção na hora de cantar, como provou ao carimbar seu primeiro sucesso, o samba Faceira (“Foi num samba/ de gente bamba/ oi, gente bamba/ que eu te conheci/ faceira…”), de autoria de Ary Barroso. Ao apresentá-la na revista Brasil do amor, a platéia só arredou pé do teatro após Silvio bisar a música seis vezes. Passada a fase inicial de sua carreira, dedicada ao samba, o Caboclinho (um de seus vários apelidos) tornou-se célebre como um grande seresteiro, coautor da clássica canção Chão de Estrelas (“Minha vida era um palco iluminado/ eu vivia vestido de dourado/ palhaço das perdidas ilusões…”), em parceria com Orestes Barbosa. Diferentemente de alguns de seus contemporâneos, o fim de carreira de Silvio não foi trágico ou deprimente – ele morreu consagrado, aos 89 anos.

O último a completar o quinteto fantástico dos grandes cantores da Época de Ouro é Carlos Galhardo (1913-1985). Mário Reis, Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas e Galhardo foram as referência do período – inclusive para seus colegas mais novos (Ciro Monteiro, Nelson Gonçalves, Jorge Veiga) – e influenciariam as gerações que viriam a seguir.

Embora as vozes masculinas predominassem, a época não ficou restrita a elas. Basta citarmos, por exemplo, a presença de Marília Batista, das irmãs Linda e Dircinha Batista, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira, Isaura Garcia e das irmãs Aurora e Carmen Miranda. Todos esses intérpretes, no entanto, fossem homens ou mulheres, não teriam experimentado o sucesso se não fossem os compositores para criar as melodias e versos que eles cantavam. E a Época de Ouro também foi pródiga nesses artistas.

Samba-canção

É um estilo de samba que se caracteriza por ser mais lento e com menos destaque para os batuques percussivos em favor da valorização da melodia, o que o torna mais próximo da modinha e da seresta. O marco inaugural do estilo foi Ai, Ioiô (Linda Flor), escrita pelo compositor Henrique Vogeler em parceria com os letristas Marques Porto e Luiz Peixoto. Com autores e letras diferentes, a música chegou a ter duas gravações (uma com Francisco Alves e outra com Vicente Celestino) antes de ganhar a forma definitiva, lançada com sucesso num disco da estrela do teatro de revista Aracy Cortes, em 1929:

Ai, ioiô

Eu nasci pra sofrer

Foi olhar pra você

Meus zoinho fechou

E quando os óio eu abri

Quis gritar, quis fugir

Mas você

Eu não sei porque

Você me chamou…

Com uma forte dosagem sentimental, muitas vezes carregado de melancolia, o samba-canção teve seu apogeu nas décadas de 1940 e 1950, marcando a carreira de compositores (Lupícinio Rodrigues, Adelino Moreira, Custódio Mesquita, Antônio Maria) e intérpretes (Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Linda Batista, Cauby Peixoto).

Aracy Cortes, estrela do Teatro de Revista

Dois ícones do estilo foram o compositor Herivelto Martins e a cantora Dalva de Oliveira. Quando o casamento deles terminou, resolveram trocar acusações sentimentais por meio de sambas-canções doloridos.

Mais tarde, o caráter intimista do formato serviria de base para as experiências sonoras dos precursores da bossa nova, como Dick Farney, Dolores Duran e Tito Madi. No entanto, quando a revolução bossanovista instalou-se definitivamente, o samba-canção perdeu espaço e sua produção praticamente desapareceu. Mesmo assim, o rico repertório do estilo ainda hoje é permanentemente revisto, com regravações de artistas de diversas gerações. Entre esses registros, podemos citar Negue (Adelino Moreira/Enzo Passos), com Maria Bethânia, e Matriz e filial (Lúcio Cardim), na voz de Simone.

Teatro de Revista

Os teatros de revista eram espetáculos anuais que passavam “em revista” os acontecimentos do ano anterior. Como eram formados por muita música, proporcionavam a compositores, músicos e cantores a oportunidade de mostrar seu talento e, assim, conquistar a plateia, possíveis consumidores de seus discos. Entre as décadas de 1930 e 1940, o teatro de revista desempenhou o papel de vitrine da música brasileira, lançando os sucessos antes do apogeu do rádio.

O empresário Carlos Machado e suas vedetes em 1958

Esse gênero teatral teria nascido no século XVIII, na França, como uma combinação do sarcasmo da commedia dell’arte e do refinamento da comedie française. Uma mistura de burleta, vaudeville, féerie, opereta, cabaré, café-concerto e music-hall, o teatro de revista aportou no Brasil trazido por companhias francesas, espanholas e portuguesas. Nas duas últimas décadas do século XIX, o gênero, graças a Artur Azevedo, abandonou o esquema rígido e seus textos foram enriquecidos com malícia e duplo sentido, à moda de sambas como Pelo telefone.

Como vitrine da música, o teatro de revista revelou diversos artistas de renome como Oscarito, Grande Otelo, Bibi Ferreira, Mara Rúbia, Virgínia Lane e Renata Fronzi. Também lançou ídolos como Ary Barroso, Lamartine Babo e Pixinguinha, que mais tarde fizeram sucesso no rádio e no disco.

Aracy Cortes, nome artístico de Zilda de Carvalho Espíndola (1904-1985) foi a maior estrela do teatro de revista. Sinhô e Ary Barroso, por exemplo, a disputavam para que suas composições fossem lançadas por ela. Era uma cantora de presença, dona de uma belíssima voz e que não tinha medo de questionar o padrão de conduta para as mulheres de seu tempo.

Devido à popularização do rádio e do cinema falado, a partir da década de 1930, o interesse pelo teatro de revista começou a diminuir lentamente. Embora a produção de peças continuasse intensa, o prestígio do gênero não era mais o mesmo. O processo de decadência se acentuou mais tarde, com o lançamento da televisão, que pôs fim definitivamente àquele tipo de espetáculo.

Carmen Miranda

Pegue o sucesso da cantora Madonna e multiplique algumas vezes. Talvez você chegue a um resultado próximo do que Carmen Miranda (1909-1955) conquistou ao longa da carreira. A moça foi a brasileira mais famosa do século XX – embora alguns brasileiros que não lidam bem com o sucesso alheio teimem em considerá-la portuguesa, por ter nascido na cidadezinha de Marco de Canavezes, em Portugal.

Mas como considerar Carmen uma típica cachopa, se a cantora chegou por aqui aos 10 meses de idade, foi criada de maneira carioquíssima entre a Praça XV e a Lapa, cantava sambas como ninguém e projetou a cultura brasileira no exterior?

Carmem MirandaA Pequena Notável

Quando Carmen lançou-se na vida artística, em 1929, a principal referência de voz feminina era Aracy Cortes. Como possuía uma extensão vocal muito menor do que a diva do Teatro de Revista, a novata apostou num estilo de interpretação encantador, que era ao mesmo tempo sensual e ingênuo. Como também fosse diminuta na tamanho (media 1,52 m), Carmen compensava a baixa estatura numa exuberância de gestos e figurinos – foi ela quem lançou a moda dos sapatos de salto plataforma.

Seu primeiro sucesso foi a marchinha Pra você gostar de mim, também conhecida por Taí (“Taí/ eu fiz tudo pra você gostar de mim…”), de Joubert de Carvalho, ao qual se seguiram centenas de outros, principalmente sambas, cujos autores se consagraram por causa dela, como Ary Barroso e Sinval Silva. A performance mais lembrada de Carmen é aquela em que, ostentando um chapéu tutti frutti, interpreta o samba O que é que a baiana tem, de Dorival Caymmi, outro compositor que deve muito a ela.

Após conquistar todos os palcos brasileiros – com destaque para a importante ribalta do Cassino da Urca, principal casa de espetáculos do Rio durante a Época de Ouro – Carmen Miranda catapultou-se para o show business internacional, consagrando-se na Broadway e em Hollywood.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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