Uma história do samba – parte 8

O carnaval e as escolas

Bem mais que uma simples escola

Que faz do sambista uma alteza

O samba, enfim, é a própria nobreza

– “O samba é minha nobreza”

(Teresa Cristina/Hermínio Bello de Carvalho/Luciane Menezes)

Quando o samba “Pelo telefone” estourou no carnaval de 1917, a folia já podia ser considerada a maior festa popular brasileira, porém ainda estava longe de apresentar a grandiosidade que tem hoje.

A primeira vez que se brincou carnaval no Brasil foi no século XVII, com o entrudo, uma manifestação importada de Portugal. Na realidade, mais do que diversão, o entrudo era uma brincadeira de mau gosto que, apesar de sucessivas tentativas de repressão por parte da polícia, persistiu até o início do século XX. Consistia no seguinte: os participantes andavam pelas ruas armados de bisnagas e bexigas, confeccionadas com cera ou borracha, e encharcavam uns aos outros de líquidos mal cheirosos. Havia também guerra de farinha de trigo e polvilho. Era uma lambança da qual participavam apenas os escravos, mas as famílias brancas muitas vezes não resistiam e, refugiadas em suas casas, interagiam na festa atirando pelas janelas baldes de água suja nos foliões que passavam pela rua.

Uma maneira, digamos, mais cheirosa de brincar o carnaval só surgiria no Rio de Janeiro, no século XIX. Por volta de 1840, os brancos da aristocracia e da emergente classe média começaram a imitar os bailes de máscaras europeus, dançando nos clubes com os rostos cobertos e constituindo as chamadas sociedades carnavalescas, nas quais a entrada era restrita aos endinheirados.

Na mesma época, porém, passaram a existir opções mais populares de carnaval. Uma delas era tornar-se um zé-pereira, nome dado ao folião que andava pela cidade tocando enormes tambores. Desfilando sozinho ou em grupo, a diversão do zé-pereira era produzir barulho e azucrinar os ouvidos alheios; ele não estava muito preocupado em tirar música da batucada.

Outra forma de carnaval que tornou-se comum a partir do século XIX foi o cordão, denominação genérica de vários tipos de agrupamentos que reuniam carnavalescos de diferentes estirpes, tanto gente rica quanto escravos – porém, com cada turma em seu cordão, uma vez que os brancos evitavam se misturar com os negros. Um pouco mais tarde, apareceriam ainda os ranchos carnavalescos e o blocos, maneiras mais organizadas de brincar o carnaval em grupo.

Cordão da Bola PretaFoliões do tradicional Cordão da Bola Preta, do Rio de Janeiro

O que servia de trilha sonora para todos esses foliões eram os ritmos e gêneros que imperavam na época – você já sabe: o lundu, o maxixe, a polca. Nenhum desses, no entanto, podia ser considerado música típica de carnaval. O pessoal até se divertia com eles, afinal, era o que havia disponível. Pelo telefone apareceu para acabar com essa história e fazer com que o samba se tornasse a música de carnaval.

Aqui cabe um parêntese. Com o tempo, outros gêneros também ganhariam espaço nos dias de folia. O mais importante, a marchinha, dominaria os carnavais entre as décadas de 1930 e 1960. Dividindo as atenções com o samba, sua presença foi tão marcante na festa carioca que a marchinha Cidade maravilhosa (“Cidade maravilhosa/ cheia de encantos mil…”), lançada por Aurora Miranda em 1935, foi adotada como hino oficial da cidade do Rio de Janeiro. Outro gênero musical importante do carnaval brasileiro que podemos citar é o frevo, uma das marcas da cultura pernambucana.

Mas, voltando ao tema do capítulo, a primeira escola de samba foi fundada no bairro carioca do Estácio de Sá, em 1928, e se lançou no carnaval do ano seguinte. Embora tenha sido o grupo pioneiro a usar esse nome, a Deixa Falar não passava de um bloco, segundo o escritor Ruy Castro, formado por “um punhado de negros pobres, vestidos no capricho, mas nem todos fantasiados, que desfilou pelas ruas cantando e tocando cuícas, pandeiros e latas de manteiga, arrastando conhecidos e desconhecidos.”

A Deixa Falar intitulava-se “escola” porque fora criada perto de uma escola pública do Estácio. Além disso, seus fundadores (entre eles, o talentosíssimo compositor Ismael Silva) consideravam-se “professores” de samba – e eles eram mesmo, pois deram novo rumo ao gênero, desvencilhando-o da herança do maxixe. O pessoal da Deixa Falar passou a ser chamado de “bambas do Estácio”, e ainda hoje a palavra bamba é sinônimo de especialista em samba.

Após o pioneirismo da Deixa Falar, começaram a aparecer dezenas de outras agremiações carnavalescas vindas dos morros e dos subúrbios cariocas. O primeiro desfile competitivo que as escolas participaram aconteceu em 1932, por uma iniciativa do jornalista Mário Filho (que hoje dá nome ao estádio do Maracanã), na época diretor do diário Mundo Sportivo. Como não havia muito o que noticiar nos intervalos entre os campeonatos de futebol, menos ainda no período de carnaval, Mário Filho resolveu turbinar as vendagens de seu jornal promovendo uma disputa entre as escolas de samba.

O palco escolhido para o desfile não poderia ter sido outro senão a praça Onze. Localizada próxima da casa de Tia Ciata, perto do atual Sambódromo, a praça Onze era o epicentro da chamada “Pequena África”. Anos mais tarde, as lembranças daquela época inspirariam os compositores Cartola e Carlos Cachaça (fundadores da escola Estação Primeira de Mangueira) a criar o belo samba Tempos idos, cuja letra conta a evolução do gênero musical que saiu de um terreiro para ganhar fama internacional.

antiga praça onzeAntiga Praça Onze, palco das primeiras escolas de samba

Nesse primeiro desfile já foi possível perceber que as escolas de samba misturavam elementos e formatos de todos os carnavais antigos. Apresentavam batucada (uma característica do zé-pereira), carros alegóricos (inventados pelas sociedades carnavalescas), fantasias (coisa típica dos cordões) e mestre-sala e porta-bandeira (personagens dos ranchos). As guerras de água fedida do velho entrudo não foram incorporadas – mas também não fizeram nenhuma falta.

Com a evolução das escolas, foram sendo criados outros elementos importantes, como por exemplo, o samba-enredo, a música que serve de trilha sonora para o desfile e cuja letra descreve a história (o enredo, daí o nome) que a escola apresenta na passarela. Também foi criada a ala das baianas, numa homenagem às famosas “tias” que tanto contribuíram para o aparecimento do samba.

A importância das escolas para a música brasileira, no entanto, não se restringe ao carnaval. Elas sempre revelaram artistas e foram decisivas para a consagração do samba. Todos os grandes compositores do gênero tiveram (ou têm) ligação com elas. Basta dizer que o maior sucesso da carreira de Paulinho da Viola, Foi um rio que passou em minha vida, é uma ode a sua escola do coração, a Portela.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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