Uma história do samba – parte 7

Sua majestade, Sinhô

Outro importante freqüentador da casa de Tia Ciata foi José Barbosa da Silva, o Sinhô (1888-1930). Ele não usava coroa – quando muito vestia chapéu – e seu trono era o banquinho no qual se sentava para dedilhar o piano. Mesmo assim, Sinhô proclamava-se uma majestade, dizia ser o Rei do Samba.

Sinhô

Compositor, professor e dono de um senso de oportunidade extraordinário, foi o primeiro artista a transformar-se num ídolo de massas. Numa época em que o samba ainda engatinhava, Sinhô percebeu o frenesi que a nova música causava no povo e apostou ali todas as suas fichas. Se o samba era uma criança, ele foi o responsável por ensiná-la a andar.

Carioca, filho de um pintor de paredes, Sinhô começou a estudar música relativamente tarde para os padrões convencionais. Tinha 17 anos. Primeiro, arriscou-se na flauta, para logo em seguida partir para o violão e o piano, instrumentos que nunca mais abandonaria. Ainda adolescente, era presença garantida em rodas musicais, como na Festa da Penha e na já citada casa de Tia Ciata, onde aprendeu que fazer samba dava pé.

Apesar de não ter muito conhecimento teórico, era capaz de inventar melodias criativas. Mesmo que no ritmo suas obras fossem herdeiras do maxixe, já apresentavam os toques urbanos adicionados pelo compositor. Um de seus sucessos foi Jura, lançado em 1929, que se tornaria um clássico de nossa música popular. Após ser cantada por diversas gerações, a composição chegaria ao século XXI com muita vitalidade, servindo até como trilha de abertura da novela O cravo e a rosa (Rede Globo, 2000), na interpretação de Zeca Pagodinho:

Jura, jura, jura

pelo Senhor

Jura pela imagem

da Santa Cruz do Redentor

pra ter valor a tua jura

A vida do compositor foi bastante movimentada, marcada principalmente por rixas musicais. Um delas dizia respeito a outro de seus clássicos, Gosto que me enrosco (“Não se deve amar sem ser amado/ é melhor morrer crucificado…”), cuja autoria era reivindicada por Heitor dos Prazeres. Respondendo à contestação do colega, Sinhô soltou uma frase que ficaria célebre: “Samba é igual passarinho, de quem pegar primeiro”.

Consciente do poder da música popular, o sambista conseguiu aproximar-se de políticos de primeiro escalão e conquistou a amizade de intelectuais. Também pode ser considerado um dos fundadores do mercado musical brasileiro. Acostumado a vender muitas partituras para piano de suas composições, ele numerava e assinava todos os exemplares para ter controle do direito autoral.

Apesar de toda influência e sucesso, Sinhô morreu prematuramente, vítima de hemoptise, na mesma penúria financeira que o acompanhou durante toda vida. Mas foi prestigiado até o final: seu enterro foi concorridíssimo e acabou descrito em uma crônica antológica de um de seus amigos, o poeta Manuel Bandeira: “era tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous, meretrizes, chauffeurs, macumbeiros, sambistas de fama, pretinhos dos choros, mulheres dos morros, baianas de tabuleiros, vendedores de modinhas…”.

Festa da Penha

Um dos tantos exemplos de como se dá o sincretismo no Brasil, a Festa da Penha é um festejo popular que acontece desde princípios do século XVII, durante os domingos de outubro, no subúrbio carioca da Penha. Destacada como a maior manifestação religiosa do Rio de Janeiro, ela teve origem portuguesa mas cresceu por influência dos africanos e seus descendentes.

igreja-de-nossa-senhora-da-penha-rjIgreja da Penha

Encarapitada no alto de um morro, onde hoje o visitante chega depois de vencer uma escadaria de 365 degraus, a igreja da Penha teve Nossa Senhora do Rosário como primeira imagem entronizada, fato que contribuiu para atrair o povo negro.

Com a abolição da escravatura e a entrada do século XX, o número de freqüentadores cresceu, atraídos pelas barracas de comida e bebida e contagiados pela música. Enquanto no interior da capela eram recitados cânticos católicos, do lado de fora se ouviam violões, flautas, cavaquinhos e pandeiros.

Até a década de 1960, a Festa da Penha foi um pólo propagador de música popular brasileira, um grande festejo de sambistas, chorões e blocos carnavalescos. Com a chegada dos anos 2000, no entanto, perdeu a força. São poucos os artistas que visitam o arraial para manter a tradição.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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Um comentário sobre “Uma história do samba – parte 7

  1. Boa tarde, Alexandre gostaria de saber se é possivel me mandar está apostila-livro, pois estou fazer pesquisa sobre este tema na faculdade que estudo. Obrigada.

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