Uma história do samba – parte 6

Ele fez a flauta batucar

Negro, dono de um sorriso cativante, ele se transformou em referência numa atividade na qual os brasileiros são especialistas. Aliás, dizem que nunca mais surgirá alguém como ele. Aos 17 anos, já era profissional e encantava o público com sua habilidade. Hoje, mais do que um ídolo, para muita gente ele é uma espécie de santo.

Adivinhou quem é? Pois se você respondeu Pelé, errou. Nosso personagem é Pixinguinha (1897-1973), o maior músico brasileiro da primeira metade do século XX, um gênio assim como o rei do futebol. Da mesma forma que Edson Arantes do Nascimento, Alfredo da Rocha Viana Filho era conhecido por seu apelido de infância.

“Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba” (2007), curta dirigido por Ricardo Dias e Thomaz Farkas

Desde pequeno, Pixinguinha esteve rodeado de músicos, a começar por seu pai, um funcionário dos telégrafos que se arriscava na flauta nas horas vagas e organizava saraus de choro em sua casa.

Aquele ambiente contribuiu para que Pixinguinha desenvolvesse seu talento e, aos 14 anos, abandonasse a escola para se dedicar à carreira musical, integrando orquestras e participando de gravações de discos. Ao mesmo tempo, começava a surgir o compositor prodígio, autor de choros (Sofres porque queres), valsas (Rosa) e sambas. Sua mais conhecida, Carinhoso, apareceu em versão instrumental em 1917, porém só se reverteria em sucesso nacional 20 anos mais tarde, ao ganhar letra de João de Barro (Braguinha) e ser gravada por Orlando Silva. Quem não sabe cantar os versos “Meu coração/ Não sei por quê/ Bate feliz / Quando te vê…”?

Além de ter contribuído para a formação da música urbana carioca (e sua divulgação no exterior, via grupo Os Oito Batutas), Pixinguinha também foi responsável pela consolidação dessa arte popular, no auge da era do rádio, nas décadas de 1930 e 1940. Ao lado do maestro Radamés Gnattali, ele ajudou a formatar um estilo de orquestração, “vestindo” as músicas de um jeito brasileiro.

A presença de Pixinguinha foi tão marcante em nossa música que o historiador Ary Vasconcelos sentenciou: “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: ‘Pixinguinha’”.

O duque do maxixe

Das ruas e clubes dançantes do Rio de Janeiro, o maxixe foi fazer sucesso em Paris, graças ao talento de um dentista baiano. Com cerca de 20 anos, Antonio Lopes de Amorim Diniz, que também atendia por Duque, largou o boticão, deixou um abraço para “maínha” em Salvador e foi tentar a vida no Rio. Deu azar, perdendo todas as suas economias no jogo, assim que chegou na cidade.

Logo depois, no entanto, conseguiu emprego como representante de um produto farmacêutico e partiu para Paris. E mais uma vez ele se deu mal, porque seus produtos não agradaram os franceses. O único remédio que Duque encontrou para resolver sua dureza financeira foi resgatar sua velha habilidade como dançarino – na adolescência, chegara a pensar em estudar balé clássico.

Pixinguinha (centro) trocou a flauta pelo sax em Paris

Freqüentando casas noturnas de Paris, o ex-dentista começou dando seus passos de tango (ritmo de sucesso por lá) e, aos poucos, foi aventurar-se em outras modalidades, até lançar o maxixe, que os franceses adoraram. Atuando sempre ao lado de alguma parceira (ou partenaire, se preferir) – a mais famosa delas foi Gaby – Duque tornou-se uma estrela da dança e construiu uma carreira admirável.

Em 1922, já muito bem estabelecido, o dançarino importou um grupo de músicos brasileiros liderados por Pixinguinha para apresentações em Paris. Os Oito Batutas era formado por, entre outros Donga (violão) e China (irmão de Pixinguinha, violão e canto).

A viagem ajudou a divulgar um pouco mais a música popular brasileira na Europa e também foi importante para aproximar Pixinguinha do saxofone, instrumento que ele adotaria definitivamente alguns anos depois.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

Anúncios

2 comentários sobre “Uma história do samba – parte 6

    1. Wellington, o grupo Oito Batutas teve mais de uma formação. A original era: Pixinguinha (flauta), Donga (violão), China (violão e voz), Nelson Alves (cavaquinho), Raul Palmieri (violão), Jacob Palmieri (bandola e reco-reco), José Alves de Lima (bandolim e ganzá).
      O nome do baterista ao qual você se refere é J. Tomás.
      Abs
      Pavan

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s