Uma história do samba – parte 5

O nascimento do samba

Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia,

Ele é negro demais no coração

– “Samba da benção” (Baden Powell/Vinicius de Moraes)

***

Eu sou o samba

Sou natural aqui do Rio de Janeiro

– “A voz do morro” (Zé Kéti)

Certos baianos dizem que o samba nasceu na Bahia. Alguns cariocas, por sua vez, discordam e defendem que o samba é natural do Rio de Janeiro. Enquanto isso, nós, baianos, cariocas ou de qualquer outro estado, podemos resolver essa questão de maneira ecumênica, cantando um samba de Candeia.

Eu não sou africano

Nem norte-americano

Ao som de viola e pandeiro

Sou mais um samba brasileiro

– “Sou mais o samba” (Candeia)

Antes de tudo, o samba é brasileiro. Sua formação começou no século XVII, a partir da chegada por aqui dos primeiros negros do Congo e de Angola. A grande variedade de danças e baticuns que eles trouxeram de seus locais de origem acabaram recebendo, por parte dos colonizadores portugueses, o nome genérico de batuque. Essa rica diversidade de sons e coreografias seria a fonte de nosso folclore, no qual encontramos manifestações como o jongo, o cateretê (ou catira), a congada, o coco, o tambor-de-crioula e dezenas de outras espalhadas por todo o Brasil.

Samba foi uma outra denominação que as batucadas dos negros receberam por aqui. De acordo com Nei Lopes, compositor e pesquisador da cultura afro-brasileira, na língua cokwe, do povo quioco, de Angola, samba é um verbo que significa “cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito”. Em sua “Enciclopédia da Diáspora Africana”, Lopes ainda nos ensina que na língua quicongo samba “designa uma espécie de dança em que um dançarino bate contra o peito de outro. E essas duas formas se originam da raiz multilinguística semba, ‘rejeitar’, ‘separar’, remetendo ao movimento físico produzido na umbigada, que é característica principal das danças dos povos bantos.”

Por isso, se retomarmos a disputa entre baianos e cariocas, poderemos dizer que ambos estão com razão, afinal a presença dos negros foi fundamental para a formação das culturas populares de Bahia e Rio de Janeiro, e o samba primitivo se desenvolveu de maneira semelhante em ambas regiões. No entanto, ao analisarmos a criação do samba urbano, obrigatoriamente ficamos do lado carioca, porque o gênero musical não teria surgido sem a presença do maxixe, do lundu, da polca e dos batuques folclóricos – e, em todo o Brasil, esses elementos só poderiam ser encontramos juntos em uma única cidade: o Rio de Janeiro do início do século XX.

Desde a década de 1870, a população negra e mestiça da capital federal (a República fora proclamada em 1889) crescia substancialmente –  em 1900, ela representava 180 mil em um total de 691.565 habitantes. Vários fatores contribuíram para esse fenômeno, como por exemplo, o declínio das lavouras do café no Vale do Paraíba, o fim das guerras do Paraguai (1870) e de Canudos (1897), a grande seca nordestina (1877-79) e, principalmente, a Lei Áurea (1888), que oficialmente encerrou a escravidão.

Largo São Francisco de Paula, Rio de Janeiro (1895) / Marc Ferrez

“A maior parte dessa gente”, conta o historiador Jairo Severiano, “acomodou-se nas zonas Centro e Portuária, ocupando uma área que se estendia das cercanias da atual praça Mauá ao bairro da Cidade Nova, abrangendo os morros da Conceição e da Providência”. Essa região acabou ficando conhecida como “Pequena África”, expressão criada pelo compositor e pintor Heitor dos Prazeres. Seus moradores homens trabalhavam como marceneiros, pedreiros e sapateiros, entre outros ofícios, enquanto as mulheres garantiam um dinheiro como lavadeiras, doceiras, costureiras e bordadeiras.

Fora dos dias de carnaval e da tradicional Festa da Penha, os principais momentos de diversão dessas pessoas aconteciam nos encontros promovidos nas casas dos trabalhadores mais bem sucedidos. E quem se sobressaia na época eram as mulheres, principalmente as emigradas da Bahia, que ganharam o nome de “tias” e possuíam um importante papel na vida cultural carioca. Algumas personagens do período são Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), Tia Bebiana, Tia Perciliana (“Prisciliana de Santo Amaro”) e Tia Amélia.

Esse tratamento não se dava apenas por respeito à idade dessas mulheres, mas também consagrava seu sucesso pessoal. Eram as baianas que assumiam o aluguel dos casarões onde moravam com a família, protegiam os migrantes recém-chegados, comandavam os cultos de candomblé, organizavam os ranchos durante o carnaval e promoviam as festas.

Na casa de Tia Ciata, localizada na rua Visconde de Itaúna, 117, os encontros (também conhecidos como pagodes ou funções) ocupavam toda a moradia: na sala de visita acontecia o baile, com violão, cavaquinho e vez por outra uma flauta executando polcas, maxixes e choros; nos quartos e na sala de jantar havia o “samba-corrido”, marcado por palmas, versos improvisados e danças individuais nas quais prevalecia a umbigada; por fim, no quintal (também chamado de terreiro) acontecia a batucada, com uma forte percussão servindo de trilha sonora para uma coreografia de “pernadas” (capoeira).

As festas eram freqüentadas por gente de todo tipo – funcionários públicos, militares de baixa batente, jornalistas e boêmios em geral – e, principalmente, por artistas que entrariam para a história de nossa música, como Pixinguinha, João da Baiana (João Machado Guedes, filho de Tia Perciliana) e Donga (Ernesto dos Santos, filho de Tia Amélia).

Em noites sucessivas dessas reuniões, nasceu o samba, em agosto de 1916, a partir de uma roda de batucada da qual participavam Donga, Sinhô, Hilário Jovino Ferreira, Germano Lopes, João da Mata e a própria Tia Ciata.  O grupo criou uma composição chamada O roceiro. Posteriormente, Donga pediu ao jornalista Mauro de Almeida que fizesse uma outra letra para a música e a registrou com o título de Pelo telefone.

O chefe da polícia

Pelo telefone

Mandou me avisar

Que com alegria

Não se questione

Para se brincar

Ai, ai, ai

Deixe as mágoas para trás

Ó rapaz

Ai, ai, ai

Fica triste se és capaz

E verás

– “Pelo telefone” (Donga/Mauro de Almeida)

A atitude de Donga até hoje gera polêmica e muito se discute sobre a verdadeira autoria da composição. Talvez a história fosse diferente se o resultado tivesse sido um fiasco, no entanto, Pelo telefone consagrou-se como grande sucesso. Gravada em dezembro de 1916 pelo cantor Bahiano e a Banda da Odeon (da Casa Edison), a música foi um estouro no carnaval do ano seguinte. Embora a etiqueta do disco o descrevesse como “samba carnavalesco”, Pelo telefone não foi o primeiro samba gravado. Antes dele, porém, nenhum outro tivera tanta aceitação popular. E isso o coloca como pioneiro do gênero matriz da música popular brasileira.

O pesquisador Roberto M. Moura resumiu assim a história: “Os negros amigos da Tia Ciata foram a uma festa e inventaram a mais ecumênica das manifestações culturais do país, aquela que é capaz de congregar raças, gerações e classes sociais numa dimensão mítica e divinatória”.

Jongo, o avô do samba

Expressão musical coreográfica trazida de Angola para o Brasil pelos negros bantos, o jongo é uma dança de roda e umbigada executada ao som de dois tambores (candongueiro e caxambu). Ainda hoje é encontrado em algumas cidades do interior do sudeste brasileiro. Na cidade do Rio de Janeiro, seu principal reduto é o Morro da Serrinha, no subúrbio de Madureira.

jongoCasal dança o jongo

A trajetória dos jongueiros da Serrinha se mistura com a história do Rio. Com o fim da escravidão, em 1888, os negros das fazendas de café (principalmente aquelas do vale do rio Paraíba) foram para a capital em busca de emprego, instalando-se primeiramente no centro da cidade e, logo em seguida, nos morros. Ali, deram continuidade à tradição de seus ancestrais. Cada comunidade fazia seu tipo de jongo, com especificidades de ritmo, dança e improviso vocal.

Sem muito esforço, é possível dizer que o jongo é uma espécie de avô do samba. O surgimento da Escola de Samba Império Serrano, por exemplo, está intimamente ligada com os primeiros jongueiros da Serrinha. Contraditoriamente, no entanto, com o tempo, o jongo acabou praticamente esquecido, sendo substituído no gosto popular justamente pelo gênero que o sucedeu.

O movimento artístico remanescente na Serrinha tornou-se exceção graças à iniciativa do percussionista Mestre Darcy Monteiro (1932-2001). Na década de 1960, percebendo que a dança corria o risco de desaparecer definitivamente, ele pediu permissão à sua mãe, Vovó Maria Rezadeira (1902-1986), matriarca do jongo, e abriu as rodas para que jovens e crianças pudessem participar, aprender e conservar a festa, que até então era exclusiva para adultos.

Os primeiros sons gravados

A Casa Edison também vendia máquinas de escrever e geladeiras, no entanto, entraria para a história da música como a primeira empresa de disco do Brasil, inaugurando nossa indústria fonográfica em 1902. É graças a ela que hoje podemos ouvir boa parte do que se produziu na fase de formação de nossa música popular urbana.

Os primeiros discos lançados pela Casa Edison traziam lundus, modinhas, tangos e valsas interpretados pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (liderada por Anacleto de Medeiros) e por dois cantores de grande cartaz na época, Bahiano e Cadete.

O responsável por esses lançamentos foi Fred Figner, um filho de família judia, nascido na Boêmia (uma província da atual República Tcheca). Ele chegou ao Brasil depois de ter passado pelos Estados Unidos e por alguns países da América Latina, sempre negociando fonógrafos, os aparelhos que foram os pais do toca-discos. No Rio de Janeiro, Figner fundou a Casa Edison em 1900 e dominou o mercado por cerca de 30 anos. No começo, gravava os discos aqui em estúdio próprio e os mandava prensar na Alemanha (primeiro com o selo Zon-O-Phone, depois com a etiqueta Odeon). Mais tarde, montou no bairro da Tijuca sua própria fábrica, de onde sairiam os álbuns dos artistas mais importantes da época, como Pixinguinha, Eduardo das Neves, Chiquinha Gonzaga e Patápio Silva.

Boa parte das gravações feitas pela Casa Edison podem ser ouvidas nas coleções dos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, ambas disponíveis no acervo virtual do Instituto Moreira Salles.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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