Uma história do samba – parte 4

Laboratório de ritmos

A partir do momento em que as danças européias chegaram por aqui, imediatamente começaram a sofrer um processo de abrasileiramento, mesclando-se a formas populares de origem africana. Os dançarinos não bailavam a polca ou a mazurca nos passos tradicionais, tampouco os músicos executavam as canções de acordo com o que estava escrito nas partituras.

Desse jeito brasileiro de interpretar a música estrangeira nasceram, na década de 1870, o tango brasileiro, o maxixe e o choro, formas musicais que se destacavam ritmicamente pela utilização da síncope afro-brasileira.

Apesar do nome, o tango criado no Brasil não possui nenhuma semelhança com o gênero argentino que é símbolo da cultura portenha. O nosso surgiu a partir da mistura da habanera e do tango espanhol com pitadas de polca e lundu. O personagem que lhe deu melhor forma foi o pianista carioca Ernesto Nazareth.

Roda de choro em tela de Cândido Portinari

No mesmo ramo da árvore genealógica musical onde encontramos o tango brasileiro está o maxixe, considerado nossa primeira dança urbana. Os nomes dados aos passos – “parafuso”, “cobrinha”, “corta capim”, “balão caindo” – nos dão uma idéia de como a coreografia do maxixe era balançante, ágil e remexida. Embora tenha feito grande sucesso nos salões e clubes de sociedades carnavalescas, principalmente entre as populações mais modestas, o sensual maxixe nunca foi completamente aceito pela classe média e caiu em desuso. Mesmo tendo sido mais importante como dança do que como música, ótimos maxixes chegaram até nós, a exemplo do Corta-jaca, de Chiquinha Gonzaga, e Jura, de Sinhô.

Já o choro foi o primeira música instrumental brasileira tipicamente urbana – e acabou tornando-se a mais importante. Vale lembrar que o choro, antes de se estabelecer como gênero musical, surgiu como uma linguagem, um sotaque, uma maneira como os instrumentistas interpretavam as canções importadas. Uma das características principais do choro é o improviso. Seu aparecimento foi uma resposta à necessidade de entretenimento de uma sociedade que se transformava rapidamente, em razão do crescimento populacional, das alterações nas camadas sociais causadas pelo fim da escravidão (em 1888) e do aparecimento da indústria.

Os primeiros chorões (como são chamados os músicos de choro) eram pertencentes à baixa classe média (pequenos comerciantes, funcionários do Correio, soldados de polícia) e quase todos tocavam por prazer. Raros eram os casos de músicos que sobreviviam apenas de sua arte. As figuras mais expressivas foram Joaquim Calado e Anacleto de Medeiros.

Além de ajudar a criar uma linguagem musical brasileira, o choro foi decisivo no aperfeiçoamento da técnica de execução de vários instrumentos, como violão, cavaquinho, flauta e o piano. Mais tarde, na década de 1930, com o surgimento do rádio, seria definida a formação “ideal” dos grupos de choro, denominada conjunto regional: violões, cavaquinho, flauta e percussão.

O choro, que anos mais tarde conquistaria platéias até no Teatro Municipal, fez a trilha sonoro de muitos momentos importantes da música popular brasileira. Esteve presente até mesmo na casa onde o samba nasceu.

Ernesto Nazareth (1863-1934)

Boa parte de sua vida, ele morou em Ipanema. Nas fotos de quando era jovem, estampava uma pinta de galã de cinema. Pianista de formação erudita, soube captar a alma do povo brasileiro com seu instrumento e ajudou a revolucionar a música brasileira. Como diz o escritor Ruy Castro, essa descrição cairia muito bem em Tom Jobim, porém é de Ernesto Nazareth que estamos falando. Principal responsável por transpor a linguagem dos chorões para o piano, Nazareth é autor de uma obra rica em ritmo e melodia, da qual podemos destacar músicas como Odeon e Brejeiro.

chiquinha-gonzaga

Chiquinha Gonzaga (1847-1935)

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, foi mais do que um fenômeno musical. Jovem, bonita e talentosa, ela desafiou preconceitos e convenções sociais para vencer num ramo artístico então dominado pelos homens. Foi ainda uma cidadã participante, atuando nas campanhas abolicionista e republicana. Pianista habilidosa e compositora de polcas, maxixes, valsas e choros, Gonzaga foi precursora da prática de se criar músicas para o período de carnaval, com a marcha-rancho Ó abre alas (“Ó, abre alas/ Que eu quero passar…”).

Joaquim Antonio da Silva Calado (1848-1880)

Talvez uma das razões de o choro ter esse nome seja por causa de Joaquim Calado, compositor e flautista que interpretava suas polcas românticas de maneira extremamente melodiosa, “chorada”. Ele foi o principal nome daquele gênero musical que nascia e também o mais famoso. Nenhuma festa ou recital era considerado digno desse nome se não tivesse sua presença. Tanto sucesso foi interrompido de maneira prematura, com sua morte aos 31 anos, causada por uma epidemia de meningo-encefalite que maltratou o Rio de Janeiro e deixou a cidade órfã de um de seus ídolos.

Anacleto de Medeiros (1866-1907)

Hoje as bandas instrumentais existem em número muito pequeno, sobrevivendo principalmente nas cidades do interior, mas elas já foram uma tradição forte em todo o Brasil. O primeiro grande mestre-de-banda que tivemos foi o Anacleto Augusto de Medeiros, batizado com esse nome incomum em homenagem ao santo do dia de seu nascimento. Multiinstrumentista, arranjador e compositor, Medeiros assumiu a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro em 1896, transformando-a num conjunto de excelência musical e referência artística do período.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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