Uma história do samba – parte 3

A Família Real e as danças européias

Quando a corte portuguesa, liderada por Dom João VI, desembarcou no Rio de Janeiro em 1808, fugindo das tropas de Napoleão, houve no Brasil um surto de civilização e desenvolvimento. O Rio era a capital do país desde 1736. A chegada do Rei e sua nobreza provocou inúmeras iniciativas que deixaram a Colônia com outra fisionomia: foram criados o Banco do Brasil, o Jardim Botânico, a Academia de Belas Artes e a Biblioteca Pública.

Do ponto de vista musical, a corte lusitana também trouxe novidades. Com a Família Real, a modinha e o lundu retornaram ao país já completamente absorvidas pela nobreza e apresentando, veja só, um certo requinte erudito. Por aqui, os gêneros cantados por Domingos Caldas Barbosa continuaram a fazer sucesso e se desenvolveram, graças ao talento de inúmeros artistas.

Até mesmo compositores especializados em música sacra e de concerto acabaram criando suas modinhas e lundus. São os casos do Padre José Mauricio Nunes Garcia (1786-1830), o maior nome de nossa música no período, e o de Francisco Manoel da Silva (1795-1865), autor do Hino nacional brasileiro. Outro personagem que se arriscou na modinha foi Cândido José de Araújo Viana, um mineiro de Sabará que exerceu diversos cargos no Império, atuando como deputado, senador, ministro da Fazenda e da Justiça, desembargador e presidente de Alagoas e Maranhão. Araújo Viana que, sabe-se lá como, ainda arranjava tempo para ser compositor e letrista, atendia pelo título de Marquês de Sapucaí. Sim, esse mesmo que, a partir de 1984, deu o nome à avenida na qual se localiza o sambódromo do Rio de Janeiro, por onde desfilam as escolas de samba dessa cidade.

Dom Pedro I, autor do “Hino da independência”, executa sua obra ao piano, instrumento trazido ao Brasil pela Família Real portuguesa em 1808. Tela de Augusto Bracet.

A corte de Dom João VI também foi responsável por introduzir no País o piano, instrumento que só começaria a ser vendido por aqui no final da década de 1820, mesmo período em se iniciou a impressão de partituras. Numa época em que ainda não haviam sido inventados o rádio e o toca-discos (muito menos a televisão, a internet e o Ipod), o piano era garantia de diversão. Ao som dele, cantava-se e dançava-se. Mais do que isso: presença obrigatória nas casas das famílias endinheiradas, o instrumento transformou-se um símbolo de status social.

O piano imperou nas salas das famílias brasileiras por cerca de 80 anos, de 1850 a 1930, quando passou a ser substituído pelos aparelhos de rádio nas horas de lazer. Outro fator que contribuiu para o declínio do instrumento foi a verticalização das cidades. Ao trocar a casa pelo apartamento, as pessoas tiveram seu espaço reduzido, e o piano acabou perdeu o posto para o violão – muito menor, mais barato e fácil de carregar.

Outra novidade trazida na bagagem pela Família Real foi uma série de danças européias que rapidamente se espalharam pelos salões de baile da corte, como o minueto, a valsa, a gavota, a quadrilha e o lanceiro. As que se adaptaram melhor aos pés brasileiros foram a valsa (criada na Alemanha) e a quadrilha (de origem francesa).

Um pouco mais tarde, em meados do século XIX, o País receberia uma nova enxurrada de gêneros dançantes importados. Os mais importantes foram a polca, o schottisch, a habanera, a mazurca e o tango, que dominariam os salões de baile do mundo todo até princípios do século XX.

Se todos eles eram sensação quando dançados por ingleses, alemães e poloneses (povos que não ênfase ao requebrado), o que se viu por aqui foi uma verdadeira explosão coreográfica, resultado da união daquelas formas musicais com os quadris brasileiros. Daí, surgiram não apenas novos jeitos de dançar, mas novas maneiras de fazer música.

Machado de Assis e a polca

Para se ter uma idéia da empolgação que a polca causou no Brasil, basta recorrermos a Machado de Assis. Escritor que tirava da vida carioca da segunda metade do século XIX os temas de sua criação literária, Machado cita a polca em nada menos do que oito de suas obras: em crônicas, nos romances “Ressurreição”, “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”, e em dois contos. Num deles, intitulado “Um homem célebre”, o escritor narra a história de um pianista e compositor chamado Pestana, que teimava em querer ser um grande autor erudito mas só conseguia escrever polcas.

“Sentado ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart, mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo”, escreve Machado de Assis.

O piano do personagem era uma espécie de altar, sobre o qual ele colocava retratos de compositores clássicos (Bach, Beethoven, Schumann), na esperança de que um dia pudesse tornar-se um deles. O drama de Pestana é tratado com ironia, afinal, a opinião que o compositor tem da própria obra é muito diferente da avaliação que recebe dos ouvintes de suas obras.

Toda vez que tentava criar uma sonata à la Chopin, Pestana tirava do piano polcas e mais polcas. Para ele, o fim do mundo. Porém, assim que suas músicas iam sendo editadas, convertiam-se em grandes sucessos populares, com nomes sugestivos como Senhora dona, guarde seu balaio e Não bula comigo, nhonhô.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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