Uma história do samba – parte 2

A moda do lundu e da modinha

Sabe-se pouco a respeito da música produzida no Brasil entre 1500 e 1760, porque não há identificação de autores, tampouco algum registro impresso. Mesmo assim, é possível afirmar que os primeiros gêneros populares que se destacaram foram a modinha (de caráter romântico) e o lundu (tradutor do humor e da sensualidade do povo).

O personagem pioneiro da música popular brasileira é o poeta, compositor e cantor carioca Domingos Caldas Barbosa (1740-1800). Filho de um funcionário português e de uma escrava angolana alforriada, Barbosa revelou sua vocação poética e facilidade para improvisar versos quando ainda era um jovem que freqüentava escola. Com pouco mais de 20 anos, partiu para Portugal com o objetivo de estudar direito na Universidade de Coimbra, mas seus planos acabaram frustrados pela falta de dinheiro.

Com a morte de seu pai, que financiava a viagem, o problema se intensificou. Para sobreviver, Domingos Caldas Barbosa passou a exibir seu talento poético-musical em festas e reuniões de nobres da capital Lisboa, atividade que lhe rendia alguns trocados. Sua situação só melhorou quando uma das famílias abastadas para as quais se apresentava começou a protegê-lo. O brasileiro pôde então transitar com mais facilidade nos salões chiques, conquistou uma vaga na Arcádia (onde adotaria o nome de Lereno Selinuntino) e ganhou um lugar entre a nova geração de poetas, na qual se destacavam nomes como Manuel Maria du Bocage (1765-1805) e Agostinho de Macedo (1761-1831).

O poeta e trovador Domingos Caldas Barbosa

Cantando suas modinhas e lundus para a corte, Caldas Barbosa alcançou grande sucesso e tornou-se o primeiro artista a exportar música brasileira. Nem tudo, porém, eram aplausos na vida do cantador. Sua figura – um mulato da colônia que fazia canções muito diferentes de tudo que se conhecia – causava estranheza. Tanto que ele tornou-se alvo da hostilidade de alguns membros da aristocracia e da intelectualidade lusitanas. O próprio Bocage, cuja obra não é nenhum manual de boas maneiras para moças de família, chegou a escrever um soneto chamando Caldas Barbosa de “orangotango com gestos e visagens de mandinga”.

Muito desse preconceito talvez se devesse, principalmente, aos lundus entoados pelo brasileiro. Ao contrário da modinha (que possuía esse nome para se diferenciar da moda portuguesa e chegava a ser considerada uma música “branca”), o lundu era multicolorido, isto é, uma fusão de elementos de origens branca e negra. Sua fórmula, que misturava o ritmo africano com melodias e harmonias européias, já revela um dos aspectos mais fascinantes de nossa música popular. O lundu, com suas canções alegres, de versos satíricos e maliciosos, foi o primeiro gênero afro-brasileiro e, portanto, elemento fundamental no processo que resultaria na criação do samba.

Na Europa, a música do mulato carioca também deixou marcas. Os versos coloquiais de suas modinhas influenciariam, mais tarde, até mesmo o poeta Fernando Pessoa. Já o lundu, seria importante para a formação do fado. Domingos Caldas Barbosa nunca mais voltaria ao Brasil, falecendo em Lisboa. Sua arte, no entanto, retornou. Transformada e misturada a outras formas musicais, a influência deixada por Caldas Barbosa veio na bagagem da Família Real portuguesa que aportou no Brasil 1808.

[Este texto faz parte do livro-apostila “Samba, a cara do Brasil” (Pueri Domus/Escolas Associadas, 2009)]

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