Uma história do samba – parte 1

Pueri Domus -Escolas Associadas me encomendou, em 2009, um texto sobre a história do samba para um livro-apostila destinado a estudantes do ensino médio. O resultado foi “Samba, a cara do Brasil”, que publico em capítulos a partir de hoje aqui no blog.

Ilustração: Lan

***

Desde que o samba é samba é assim

O segredo da força do samba

É a vivência do seu fundamento

O que faz ser eterno um bom samba

É a beleza que tem seu lamento

– “Lamento do samba” (Paulo César Pinheiro)

O samba é arte e, como toda expressão artística, está num processo constante de mudança e transformação. Ele se apresenta de diversas maneiras: pode ser o samba-enredo entoado pelas escolas que desfilam na avenida nos dias de carnaval; aparece como o partido-alto dos tradicionais encontros musicais do subúrbio carioca; encanta no formato samba-de-roda nas cidades do Recôncavo Baiano; anima as baladas de São Paulo em sua versão samba-rock ou funk. Sem esquecer que o samba ainda pode ser de breque, exaltação, sincopado, miudinho ou samba-canção.

Hoje o samba é considerado elemento fundamental da nossa música popular e definidor da identidade cultural brasileira. Em suas muitas variações, ele está nas ruas – seja no Rio Grande do Norte ou do Sul – nos sambódromos, nos pequenos botequins, nas grandes casas de espetáculos, nas novelas ou nos videoclipes da MTV.

No entanto, nem sempre foi assim. Fruto de nossa herança africana, o samba sofreu com o preconceito, e seus artistas, por muito tempo, foram estigmatizados como bandidos ou vagabundos (e não vamos nos enganar dizendo que tal intolerância desfez-se por completo). Entretanto, em distintas épocas de opressão, o samba nos brindou com músicas que eram verdadeiros hinos em favor da liberdade, como os versos de Opinião (1964), de Zé Kéti, imortalizado na voz de Nara Leão: “Podem me prender, podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião”

É como canta Caetano Veloso, em Desde que o samba é samba (1993), “O samba é pai do prazer/ O samba é filho da dor”. Para entender esse gênero musical, é preciso compreender essa permanente dualidade, que nada mais é do que a própria vida (alegria versus tristeza, euforia versus melancolia, passado versus futuro). Por isso, conhecer o samba é nos aprofundarmos em nós mesmos.

***

A régua e o compasso do samba

Primórdios e raízes da música popular brasileira

É difícil determinar hora e local exatos do surgimento do samba, por se tratar de uma expressão artística. Ele não tem certidão de nascimento. Também não há um único pai ou uma só mãe. Sua aparição é o resultado de um processo. Por isso, quando alguém afirma gostar de “samba de raiz”, talvez o correto fosse dizer “samba de raízes”.

Para investigarmos a origem desse gênero musical, precisamos voltar alguns anos no tempo – mais especificamente, retroceder até o ano 1500. Quando os portugueses aportaram no Brasil, encontraram populações indígenas que já utilizavam a música em seu cotidiano. Como qualquer música primitiva, aquela feita pelos nativos brasileiros era essencialmente religiosa e ligada a cerimônias e atividades da tribo: cantos de guerra, de caça, de pesca, de invocação e homenagem às entidades sobrenaturais.

Bem cedo, a música tornou-se um elo de interação cultural entre portugueses e indígenas – foi com ela, por exemplo, que os padres jesuítas procuravam atrair os índios mais jovens para o catolicismo. Com o passar dos anos, no entanto, a absorção pela catequese e o aniquilamento pela escravidão contribuíram para que, no final das contas, os índios deixassem poucas marcas em nossa música. Mesmo nas famosas obras dos eruditos Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos, os indígenas aparecem sempre estilizados.

Assim, quem nos deu régua e compasso foram os europeus, de uma maneira geral, e os portugueses em particular. Herdamos da Europa o sistema tonal, os instrumentos de cordas (violão, viola caipira, cavaquinho), a importância dada às palavras e a prática da criação de versos de improviso – e você pensando que o canto improvisado tinha surgido com o rap…

Outra influência fundamental seria a do negro, que esteve presente desde muito cedo no processo de colonização. Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil em 1538, mas já influenciavam a criação musical lusitana há cerca de um século. A presença africana se destaca principalmente em dois aspectos da brasileira: na valorização dos instrumentos de percussão e na malícia rítmica. Sem esses elementos, convenhamos, o samba teria a animação de uma canção de ninar.

Batuque (1835) Johann Moritz RugendasBatuque (1835), de Johann Moritz Rugendas

Ainda podemos destacar como influência significativa em nossa música a presença dos árabes – mas de forma indireta, via portugueses, que estiveram sob o domínio deles por longos séculos – e dos espanhóis, que dominaram Portugal (e consequentemente o Brasil) entre 1581 e 1640. Bem mais tarde, na segunda metade do século XIX e princípios do século XX, imigrantes italianos e alemães também dariam sua contribuição à musicalidade brasileira, a exemplo da incorporação de instrumentos como o acordeon e o bandolim.

A influência dos italianos seria ainda responsável pelo peculiar sotaque de Adoniran Barbosa, um de nossos mais talentosos compositores, autor do célebre Trem das onze (“Não posso ficar/ Nem mais um minuto/ Com você”) e do divertido Samba italiano (“Piove, piove/
Fa tempo que piove qua, Gigi”). No entanto, antes de chegarmos em Adoniran, no século XX, não podemos nos esquecer de um outro personagem importante nessa história: Domingos Caldas Barbosa. Coincidentemente, possuía o mesmo sobrenome do sambista paulista (embora não haja parentesco entre eles) e também fez um grande sucesso em sua época.

O que é sistema tonal?

As primeiras peças escritas da música ocidental foram religiosas, no século IX. Eram obras do canto gregoriano, também chamado de cantochão, uma herança das igrejas orientais que ganhou grande importância na liturgia cristã. O cantochão é classificado como música modal. Um “modo” nada mais é do que a sucessão de todas as notas “naturais”, as famosas dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.

Com o tempo, a música ganhou maior complexidade e surgiu o sistema tonal, aquele que prevalece na música ocidental. Ele é composto por 12 notas. A melhor maneira de entendê-lo é visualizando o teclado de um piano, no qual as teclas brancas representam os sete tons inteiros (nossos conhecidos dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) e as teclas pretas indicam os cinco semitons encontrados entre cada um dos tons.

As notas podem ser elevadas ou abaixas em um semitom. Quando isso acontece, elas recebem o nome de sustenido (quando elevadas) ou de bemol (quando abaixadas). Por exemplo, se você eleva a nota dó em um semitom, ela torna-se um dó sustenido; ou então, se você abaixa a nota mi em um semitom, ela torna-se um mi bemol.

Anúncios

16 comentários sobre “Uma história do samba – parte 1

  1. Caro amigo,

    Como entusiasta e sambista estou muito feliz em ver essa pesquisa com tanta riquesa de detalhe.
    Venho lhe perguntar se pode me passar o arquivo completo sobre a história do samba?
    Sou também um humilde compositor e gosto de conhecer a fundo o que eu falo e escrevo e com certeza em sua pesquisa essa fonte de informação!

    Desde já agradeço.

    Rafael Morgan

  2. Alexandre achei muito interessante este material… Você não poderia disponibilizar para distribuirmos para estudantes e comunidades por aqui por Manaus?

  3. Prezado Alexandre
    Esqueci de nos apresentarmos. Somos uma associação sem fins lucrativos que trabalha em Manaus com vetores musicais, teatrais, cinematograficos, terapeuticos sempre gratuitamente. Na internet temos 2 blogs o afinsophia e esquizofia. Além disso nós fazemos em alguns bairros “perifericos” (já que ´a periferia da cidade é o rio) daqui de Manaus, um trabalho com samba, o Afin Samba. A idéia era se possível distribuir para bibliotecas comunitárias (como a bibliosofia que nós temos no bairro do Nova Cidade), e alguns professores e escolas.
    Abaixo deixo o registro do encontro de comunalidades do afin samba.

    http://afinsophia.wordpress.com/2011/08/03/afin-samba-um-samba-comunalidade/

  4. a internet tem dessas coisas…eu estava procurando uma música e acabei achando esse texto super bacana seu…grata surpresa! abraços e sucesso sempre! Gisele Taveira (Gaban)

  5. é muito lindo pessoas como vc desvendar esta pesquisa, que nos retrata a formação de uma identidade que o brasil desenhou ao longo de sua história. muito obrigado por posta na net sua pesquisa. Eu gostaria se fosse possivel que vc mandasse o artigo completo por email por favor isso é lindo mano.
    skynetouteiro@gmail.com

  6. Prezado Professor Alexandre Pavan: Me chamo Paulo Pereira, sou jornalista por formação e atuo como Diretor de Comunicação de uma Escola de Samba aqui na grande Florianópolis, no município de Palhoça. Conheço a sua obra e gostei muito. Gostaria de uma autorização para publicar seus textos num ícone que criei no site da Escola que conta a história do samba. O nome da Escola é Palhoça Terra Querida! O site é; http://www.grespalhocaterraquerida.com.br
    Fico no aguardo, um forte abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s