Vinicius, o poeta onipresente

Escrevi o texto abaixo para a revista “CartaCapital”, em 2003, quando se comemoraram os 90 anos de nascimento de Vinicius de Moraes. Aproveitando a lembrança de três décadas sem o Poetinha, a serem completadas nesta sexta-feira, 09/07/2010, republico aqui o artigo.

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É sempre tempo de celebrar Vinicius de Moraes (1913-1980). Esta parece ser a estratégia das empresas que apostam no nome e na obra do poeta para vender seus produtos, desde os mais óbvios (livros e CDs), até artigos mais inusitados, como perfumes. Se bem que o artista, que vivia metido dentro de uma banheira cheia de espuma, acharia divertida a idéia de ver seu nome estampado em frascos de colônia pós-banho.

E não param de pipocar efemérides para se festejar o poeta carioca. Os calendários quase sempre guardam uma data especial que serve de mote para editoras, gravadoras e outras empresas recordarem Vinicius. Pode ser a comemoração de seu nascimento, a lembrança de sua morte, ou então o simples aniversário de qualquer uma de suas obras. E o curioso é que ninguém ligou tão pouco para homenagens, ninguém gostou menos de hora marcada do que Vinicius.

Mas é esta lembrança freqüente que faz do poeta caso raro do mercado nacional de entretenimento, porque, mesmo ausente, tem sua obra constantemente em catálogo, reeditada, revista e em exposição.

Neste 2003, o mote foi seus 90 anos, que ele completaria em 19 de outubro. E os festejos promovidos pela indústria artística ganharam uma magnitude ainda maior do que aquela que comemorou seus 85 anos (em 1998) ou a que lembrou os 20 anos de seu falecimento (em 2000). Os 90 anos de Vinicius começaram no ano passado, com o relançamento do livro de fotos e poemas O Mergulhador (Argumento), de Pedro de Moraes, único filho homem do poeta. Também no final de 2002, chegaram às livrarias a agenda literária Anotações com Arte, organizada por Fred Rossi, e a pasta Um Arquivinho do Poeta (Bem-Te-Vi), montada por Lélia Coelho Frota.

Na esteira, e já em 2003, vieram outros lançamentos. A editora Companhia das Letras publicou Querido Poeta – Correspondência de Vinicius de Moraes, organizado por Ruy Castro, ao mesmo tempo em que está reeditando, com novo tratamento gráfico, todas as obras do poeta de seu catálogo. Pela mesma editora também acaba de sair a Nova Antologia Poética, selecionada por Antonio Cícero e Eucanaã Ferraz – diferente daquela antologia que havia sido organizada por Vinicius nos anos 50. E o selo Companhia das Letrinhas atinge o público infantil com O Poeta Aprendiz – Uma canção de Vinicius de Moraes e Toquinho, CD-livro cantado e ilustrado por Adriana Calcanhoto. (lista de lançamentos no box 2)

Ainda no quesito livros, sai nesta semana uma edição caprichada da peça Orfeu, a primeira de um série de publicações que pretende reconstituir o cancioneiro de Vinicius de Moraes. Passando para a música, Gilda Mattoso, que foi a última das nove esposas do poeta, produziu a coletânea Vinicius 90 Anos. Outra homenagem foi da cantora Miúcha, com o CD Miúcha Canta Vinicius & Vinicius. Com a mesma proposta, saem no princípio de 2004 os discos de Maria Bethânia e Paula Morelembaum.

De acordo com o jornalista José Castello, autor da biografia Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão, essa constante celebração de Vinicius se deve a dois motivos: a importância de sua obra poética e musical, mas, principalmente, a sua personalidade. “Ele tinha a imagem do brasileiro padrão, isto é, todos esses lugares-comuns que existem a respeito do brasileiro (e particularmente do carioca), Vinicius se encaixa perfeitamente: alegre, musical, descontraído, extrovertido, irreverente”, explica Castello. O jornalista ainda destaca outro fator: “Era um homem encantador que viveu intensamente e nunca, ao contrário de outros poetas e escritores, deixou que a criação (musical e poética) se separasse do seu cotidiano. Pelo contrário, vida e obra de Vinicius estão entrelaçadas de uma forma rara. Por isso, é inevitável: quando você lê um poema ou ouve uma música, você pensa no Vinicius.”

Realmente o poeta deve acionar os sentidos. No embalo de seus 90 anos, até a empresa de cosméticos Avon criou em 2001 uma linha de produtos para homenageá-lo. A coleção Mulher & Poesia oferece quatro colônias inspiradas em nomes de músicas e poema: Onde Anda Você, Soneto de Fidelidade, Morena Flor e Coisa Mais Linda.

Quem cuida de todo o dinheiro que essa avalanche de produtos gera é a VM Produções, Publicidade e Participações, empresa criada em 1989 pelos cinco herdeiros do poeta – além do já citado Pedro, as filhas Susana, Luciana, Georgina e Maria. A VM é responsável pela arrecadação de direitos autorais, vendas de publicidade, licenciamento e criação da maior parte dos projetos relacionados ao poetinha. A administração é feita em parceria com a Natasha, capitaneada por Paula Lavigne e Conceição Lopes.

Luciana de Moraes não revela o quanto a obra de Vinicius rende anualmente em direitos autorais. “Não que eu não queira dizer, mas é uma coisa que depende do mercado, varia muito”, desconversa. E retoma o assunto: “Mas garanto que nenhum de nós é milionário, ninguém anda de Mercedez Benz. Vivemos bem, é claro, não vou dizer o contrário, pois Vinicius deixou uma herança abençoada”.

Depois da criação do site oficial do poeta, que oferece sua obra completa em verso e prosa, a VM tem a intenção de montar um instituto para preservar a memória do compositor de Pela Luz dos Olhos Teus. A maior parte do material original e inédito que ele deixou foi doada à Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, um desejo antigo do autor. Existe, no entanto, outro baú de raridades recolhidas na última década.

“Por enquanto, esse material está guardado a sete-chaves, passando por organização e catalogação”, conta Luciana, que pretende firmar futuramente parceria com algum instituto ou então criar o que seria uma “Casa Vinicius de Moraes”. Certos mesmo e agendados para 2004, a VM tem dois projetos: um filme sobre a vida do poeta e um verdadeiro kit Arca de Noé. “Queremos produzir um DVD da peça da Arca, que está em cartaz no Teatro Villa-Lobos, e lançar um novo CD, com as canções revisitadas”, diz Luciana.

O longa-metragem começou a ser rodado há três semanas, sob as mãos de Miguel Farias, ex-marido da também cineasta Susana de Moraes, que foi quem o convidou para a direção. “Será um filme semi-documental, pois terá uma parte ficcional. Nesse primeiro momento estamos gravando entrevistas com amigos, músicos e parceiros”, explica Farias, que também assina o roteiro da obra. O projeto é uma co-produção entre Brasil, França e Espanha, com previsão de lançamento para daqui a um ano.

O músico Henrique Cazes também guarda na manga um material interessante sobre o poeta. Em 1965, Radamés Gnatalli escreveu uma cantata para o poema O Operário em Construção, peça que teve sua única audição há 10 anos (mais uma efeméride), no dia 1º de maio de 1993. Organizada e regida por Cazes, a obra foi apresentada ao ar livre na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, com gravação e transmissão da Rádio Cultura de São Paulo. “Durante esses anos tentei completar o projeto, que, finalmente, talvez saia em forma de CD em 2004”, comemora o músico.

A melhor explicação para essa lembrança constante de Vinicius provavelmente esteja num depoimento de Carlos Drummond de Andrade, colhido alguns anos depois do falecimento do autor de Samba da Benção. “Vamos aguardar o futuro, daqui a 20, 30 anos, uma nova geração julgará estética e não emocionalmente o poeta, com uma isenção que nós não somos capazes de ter. Eu acredito que a poesia dele sobreviverá, independente de modas e teorias, porque responde a apelos e necessidades de todo o ser humano. Ele queria um mundo preparado para o amor, livre de limitações, pressões, humilhações sociais e econômicas. Ora, um ideal desta ordem é, certamente, eterno, e Vinicius o defendeu com muita eficácia, quer na poesia pura quer na poesia em forma de música.”

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PARTE 2 * PARTE 3

O documentário musical acima, intitulado “Mosaicos – A Arte de Vinicius de Moraes”, foi produzido pela TV Cultura em 2009 e traz participações de Carlos Lyra, Toquinho, Fernando Faro, Anna Luisa, Margareth Menezes e Paula Mirhan.

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