Diário: a pessoa inventada

susan sontagTranscrevo abaixo alguns trechos dos diários da ensaísta norte-americana Susan Sontag, publicados no livro “Diários – Susan Sontag (1947-1963)”, lançado em 2009 pela Companhia das Letras. Um reflexão interessante sobre o que é fazer um diário. São anotações de 1957, quando a escritora estava com 24 anos. (Obs. A Harriet citada era sua amante na época)

É superficial entender o diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados, secretos, de alguém – como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer pessoa; eu me crio.

O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha vida real, diária, mas sim – em muitos casos – oferece uma alternativa para ela.

Há muitas vezes uma contradição entre o sentido de nossas ações em relação a uma pessoa e o que dissemos que sentimos em relação a essa pessoa num diário. Mas isso não significa que aquilo que fazemos é superficial e só aquilo que confessamos para nós mesmos é profundo. Confissões, refiro-me a confissões sinceras, é claro, podem ser mais superficiais do que as ações. Tenho em mente agora aquilo que li hoje (quando fui ao B[oulevard] S[aint] G[ermain] 122 para ver se havia correspondência para ela) no diário de Harriet a meu respeito – aquela avaliação seca, injusta, impiedosa a meu respeito que conclui com ela dizendo que na verdade não gosta de mim mas que a minha paixão por ela é aceitável e oportuna. Deus sabe como isso magoa e me sinto indignada e humilhada. Raramente sabemos o que as pessoas pensam a nosso respeito (ou melhor, acham que pensam a nosso respeito)… Eu me sinto culpada por ter lido algo que não se destinava aos meus olhos? Não. Uma das funções sociais de um diário é exatamente ser lido escondido por outras pessoas, pessoas (como pais + amantes) sobre as quais o autor se mostrou cruelmente franco apenas no diário. Será que Harriet vai ler isto?

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