Janeiro 14, 2009

Angenor de Oliveira, o Cartola
Compositor cuja formação resumia-se ao primário completo, Cartola era um leitor atento, principalmente de poesia. A pesquisadora Marília Trindade Barboza, autora com Arthur de Oliveira Filho da biografia do sambista, conta que alguns de seus autores preferidos eram Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e o português Guerra Junqueiro (1850-1923). Desse último, Cartola admirava o livro “A velhice do Padre Eterno”.
Não sei qual seria a influência de Fernando Pessoa (se é que ela existe) nas leituras do mangueirense, no entanto, é curioso perceber que o heterônimo Alberto Caeiro também cogitava existir uma língua das flores:
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia…
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam…
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Literatura, Música | Etiquetado: Alberto Caeiro, Cartola, Guerra Junqueiro |
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Escrito por Pavan
Janeiro 8, 2009

“Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento”. O medonho prédio do Instituto Tomie Othake inverte a máxima popular ao abrigar até o dia 15 de fevereiro a bonita mostra “A consistência dos sonhos”, dedicada à vida/obra de José Saramago.
Estão expostos os diversos cadernos de anotação e agendas usados pelo escritor ao longo da carreira, uma porção de manuscritos de contos e poemas, muita fotografia e uma sala montada com a intenção de imitar o escritório de Saramago, com móveis, máquina de escrever e até mesmo os óculos do autor de “Memorial do Convento”. Para os fãs fetichistas uma belezura. A visita é gratuita. Melhor do que a pirotecnia cenográfica, no entanto, foi descobrir a crônica “Carta para Josefa, minha avó”, publicada por Saramago, em 14 de março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”.
A velha senhora era analfabeta. É emocionante pensar que, 30 anos depois da publicação da carta, o neto dela receberia o Prêmio Nobel de Literatura.
Eis a crônica:
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.
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Literatura | Etiquetado: Exposição A Consistência dos Sonhos, Instituto Tomie Othake, José Saramago |
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Escrito por Pavan