Alexandre Pavan

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50 anos sem Villa-Lobos

Janeiro 9, 2009

A principal efeméride da música brasileira em 2009 é o cinquentenário da morte de Heitor Villa-Lobos, o maior compositor que já tivemos. Ontem, na Folha, Irineu Franco Perpetuo publicou reportagem (link para assinantes) sobre o assunto, anunciando os concertos e lançamentos de CDs e DVDs que vêm por aí.

Aproveito o mote para inaugurar uma das categorias deste blog, dedicada a livros que estão fora de catálogo. A estréia é com “Reminiscências líricas de um perfeito carioca”, do pintor Di Cavalcanti. O volume de memórias do artista foi lançado originalmente em 1965 pela editora Civilização Brasileira como parte de uma coleção em homenagem ao 4º centenário do Rio. Em um dos trechos da obra, Di Cavalcanti traça um perfil do amigo Villa-Lobos. Na transcrição abaixo, mantive a ortografia original do texto: 

Separando em categorias meus amigos cariocas, procuro em primeiro lugar os que mais se identificam a esta terra, os músicos e, entre êles, dois sem desmerecer um só momento, os outros: Villa Lobos e Pixinguinha.

Villa Lobos veio à minha vida numa tarde de 1920. Passava pela rua da Quitanda quando me chamou Jaime Ovale:

– Olha aqui o Villa Lobos.

Olhei o monstro e até o dia em que êle morreu o admirei naquela cabeça bela e atormentada. Freqüentei sua casa da rua Dídimo, do velho bairro do Senado, ainda com tôdas as dádivas antigas, bem perto da rua do Lavradio e da rua dos Inválidos, da rua do Riachuelo e não longe da Lapa. Ali vivia Villa Lobos perto de José do Patrocínio Filho, perto do Sinhô, perto da Preta Rita, que saía no Carnaval na frente de um rancho com o nome dela: Rita e seu Cordão. Na rua Dídimo, o Villa, já era o Villa Lobos de tôda a sua obra, que êle escrevia numa desordem terrível, pelos cantos da mesa de jantar, com gente entrando e saindo: meninos travessos, credores, parentes pobres, môças assanhadíssimas, crianças insuportáveis.

Lembro-me da mãe de Villa Lobos, gritando para a preta empregada:

– Conceição! será preciso um pistolão do falecido Rodrigues Alves para servir o jantar?

Jantávamos com Villa, Ovalle, eu, Dante Milano. Uma noite, levamos lá Manuel Bandeira. Os vizinhos reclamavam as dissonâncias musicais, e o mestre, incansável, produzia como produziu até o fim da vida, acima de tôda mediocridade que o cercou.

Villa Lobos era um monstro, comendo tudo que dêle se aproximava. Construía mundos seus com as coisas que apareciam; também inventava… Seu mundo, era uma ilha de gravura medieval, com castelos e templos cercados dos mares com peixes disformes e sereias pulando, navios trazendo o fausto e as iguarias de outras terras.

Na sua imensa vaidade, que nada tinha de vaidade dos medíocres, sentia-se grande para se igualar a êste mundo carioca: coisa descomunal e desmedida. Não sabia ser pequeno, minucioso, nem mesmo gracioso: era um mão de ferro, um ditador, um chefe de fila. Possuía uma virilidade inconcebível, dominava as mulheres, mas nunca foi um conquistador, um D. Juan. Apegou-se ao amor dos que muito o amavam. Sua fortuna era seu ânimo de viver. E êsse leão muitas vêzes passou comigo horas serenas, na tranqüilidade do contato com as coisas simples. Segurava o violão e, com a sensualidade popular, dedilhava as cordas do instrumento como se fôsse sempre o antigo boêmio procurando uma serenata. Ele era o Rio e cresceu com o Rio: ficou sendo o arranha-céu, depois de ter sido o sobrado, e na sua gloriosa carreira, jamais perdeu sua música, esta complexa contextura da música carioca; sempre despontando nas suas orquestrações sinfônicas, nos seus concêrtos de cordas ou nos seus cantos orfeônicos.

Ao contrário de Villa Lobos, Pixinguinha é o sumo de outra fruta, é flor de manacá, não uma orquídea pomposa. Pássaro acordando as águas dos riachos, poeta de redondilhas e de trovas, dono do canto negro e da melodia mestiça. Pixinguinha representa uma permanência diversa da de Villa Lobos na música brasileira. Villa foi uma fatalidade anímica para a concepção erudita, para os faustos das musicalidades teatrais. O meu querido Pixinguinha, da Estação de Olaria, é um pássaro de mais modesto porte, mas não menos importante. Seu Carinhoso é obra clássica no samba popular. 

Livro Di Cavalcanti

5 Comentários | Fora de catálogo, Música | Etiquetado: Dante Milano, Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Jaime Ovalle, José do Patrocínio Filho, Pixinguinha, Reminiscências líricas de um perfeito carioca, Sinhô | Link Permanente
Escrito por Pavan


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