Ferreira Gullar: borbulhas de amor na música brasileira

ferreira gullar

Poeta, ensaísta e crítico de artes plásticas, Ferreira Gullar é também um personagem marcante em nossa música. Não à toa, seu nome é verbete na “Enciclopédia da Música Brasileira”. Entre seus parceiros musicais estão Caetano Veloso (“Onde andarás”), Paulinho da Viola (“Solução de vida”) e Milton Nascimento (“Bela bela”).

Pouca gente sabe, mas o bolero “Borbulhas de amor” (Quem me dera ser um peixe / para em teu límpido aquário mergulhar…), de autoria do dominicano José Luiz Guerra e um dos maiores êxitos da carreira do cearense Raimundo Fagner, tem a versão brasileira da letra assinada por Gullar.

Seu maior sucesso em nosso cancioneiro, no entanto, é a letra/poema que ele escreveu para a “Bachiana nº2″ (tocata), mais conhecida como “O trenzinho do caipira”, de Heitor Villa-Lobos. Os versos originalmente integram o “Poema sujo”, que Gullar lançou em 1976, quando estava no exílio, e transformou-se em seu livro mais famoso. Algum tempo depois, ao ser gravada por Edu Lobo, a letra projetou a música e foi responsável por popularizar aquela melodia de Villa-Lobos.

Em 2003, eu e o amigo Irineu Franco Perpetuo tivemos a honra de entrevistar Ferreira Gullar e, por mais de uma hora, conversar com o poeta sobre sua relação com a música. Na época, nós apresentávamos na Rádio América AM, de São Paulo, o programa “Trilha Brasileira”, que era veiculado nas tardes de sábado. A cada edição contávamos com um convidado diferente, dentro de um quadro intitulado “Sala de Recepção” (claro, nome roubado de um samba de Cartola…). Por problemas de agenda, não conseguimos levar Gullar para os estúdios da rádio, então nos deslocamos até o hotel onde o poeta estava hospedado e gravamos a entrevista lá mesmo. Depois editamos o papo, colocamos música e montamos o programa.

O resultado você pode conferir abaixo. Dividi o programa em 4 partes.

PARTE 1: Ferreira Gullar fala de sua infância, dele menino em São Luis (MA) ouvindo Vicente Celestino e Orlando Silva no rádio;

PARTE 2: O poeta comenta sua paixão pelo Salgueiro e critica os atuais desfiles das escolas de samba, fazendo uma comparação com a Academia Brasileira de Letras. Para ele, assim como a maior parte das pessoas que usam o fardão não merecem ser chamadas de escritores, a maioria dos passistas da Sapucaí não são sambistas.

PARTE 3: Gullar conta a hsitória da letra/poema para “O trenzinho do caipira” e diz que Mindinha Villa-Lobos, viúva do compositor, recusava-se a dividir com ele os direitos autorais pela execução da música.

PARTE 4: A divertida história da letra para o bolero “Borbulhas de amor”. E o programa termina com Gullar declamando “O trenzinho do caipira”. Emocionante.

5 Respostas para “Ferreira Gullar: borbulhas de amor na música brasileira”

  1. Angela Disse:

    Ferreira Gullar é uma árvore genealógica da poesia brasileira por nele conter o que caberia ser distribuído em uma floresta de várias épocas. Em sua obra, olhar e prosa, até mesmo sua esquisitice, são para mim expressões de uma estrutura, textura, partituras, folhas e galhos que são uma especie de marcas de um ser poesia no mundo, daquilo que o submundo contem de movimento essencial do mundo.

    Parabéns pelo trabalho.

    Angela

  2. Irineu Disse:

    Puxa, foi uma surpresa muito gostosa reencontrar o programa aqui no blog. Se ainda houver cópias do resto, apoio que as outras edições de Trilha Brasileira também sejam subidas por aqui. Você está fazendo um arquivo muito bacana da música brasileira. Parabéns!

  3. Pavan Disse:

    Obrigado pelo toque. Já corrigi o texto.

Deixe uma resposta