A elegância de Dick Farney

Janeiro 23, 2009

Dick Farney nem imaginava tornar-se um cantor de sucesso. Aliás, ele nem queria. Ao se lançar como músico, seu único interesse era ser um grande pianista, como seus ídolos do jazz – Dave Brubeck, Nat King Cole. No entanto, após estrear profissionalmente no microfone, em 1937, se revelaria um dos mais importantes intérpretes da música popular brasileira. A trajetória artística dele foi contada no documentário musical “Mosaicos – A Arte de Dick Farney”, que produzimos na TV Cultura em 2007. O especial está disponível na íntegra no YouTube, em 8 partes. Abaixo, a primeira delas e os links para as demais.

Parte 2; Parte 3; Parte 4; Parte 5; Parte 6; Parte 7; Parte 8 (final)


O fim da Kuarup

Janeiro 22, 2009

Uma nota publicada na página inicial do site da gravadora e produtora Kuarup informa que, na virada de 2008/2009, após 31 anos de atividade, a empresa fechou as portas. “Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade”, diz o texto.

A Kuarup possuía um importante catálogo de música brasileira, apostando na diversidade e investindo nos diferentes gêneros e ritmos regionais – choro, samba, caipira tradicional, música nordestina, instrumental. Alguns artistas tinham sua discografia intensamente ligada ao selo, como é o caso de Elomar.

O fim da Kuarup é emblemático porque, embora a gravadora tenha sido criada na onda dos independentes do final década de 1970, apostando em artistas que as companhias multinacionais desprezavam, optou pelo mesmo modelo de negócio das majors. Não podia ser de outra forma, afinal o modelo sempre foi um só: graver discos e lucrar com a venda desses produtos. A diferença estava nos catálogos. Mas a evolução tecnológica modificou a produção e o consumo de música, demolindo aquele modelo.

Independentes ou não, grandes ou pequenas, as gravadoras restantes também deverão ruir. O que virá depois? Essa e outras incógnitas são discutidas e analisadas no livro “O futuro da música depois da morte do CD”, organizado por Irineu Franco Perpetuo e Sérgio Amadeu da Silveira. O volume, que traz 16 artigos assinados por produtores, músicos e especialistas em cultura e tecnologia, está disponível gratuitamente aqui.

Kuarup é o nome de um ritual dos povos indígenas do Parque do Xingu em homenagem aos mortos. Apesar do mote, é uma festa que se destaca pela alegria, sentimento que os entusiastas do moribundo mercado fonográfico não desfrutam há tempos.


Princípio e fim

Janeiro 15, 2009

O grande problema de nosso tempo é que o futuro não é mais como costumava ser. – Paul Valéry

A civilização começou no Oriente Médio e pelo jeito também é lá que vai acabar. – Sérgio Augusto


Cartola e a língua das flores

Janeiro 14, 2009

Angenor de Oliveira, o Cartola

Compositor cuja formação resumia-se ao primário completo, Cartola era um leitor atento, principalmente de poesia. A pesquisadora Marília Trindade Barboza, autora com Arthur de Oliveira Filho da biografia do sambista, conta que alguns de seus autores preferidos eram Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e o português Guerra Junqueiro (1850-1923). Desse último, Cartola admirava o livro “A velhice do Padre Eterno”.

Não sei qual seria a influência de Fernando Pessoa (se é que ela existe) nas leituras do mangueirense, no entanto, é curioso perceber que o heterônimo Alberto Caeiro também cogitava existir uma língua das flores:

Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.

Parecem ter medo da polícia…

Mas tão boas que florescem do mesmo modo

E têm o mesmo sorriso antigo

Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem

Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente

Para ver se elas falavam…



A avó de Saramago

Janeiro 8, 2009

 

 

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“Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento”. O medonho prédio do Instituto Tomie Othake inverte a máxima popular ao abrigar até o dia 15 de fevereiro a bonita mostra “A consistência dos sonhos”, dedicada à vida/obra de José Saramago.

Estão expostos os diversos cadernos de anotação e agendas usados pelo escritor ao longo da carreira, uma porção de manuscritos de contos e poemas, muita fotografia e uma sala montada com a intenção de imitar o escritório de Saramago, com móveis, máquina de escrever e até mesmo os óculos do autor de “Memorial do Convento”. Para os fãs fetichistas uma belezura. A visita é gratuita. Melhor do que a pirotecnia cenográfica, no entanto, foi descobrir a crônica “Carta para Josefa, minha avó”, publicada por Saramago, em 14 de março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”.  

A velha senhora era analfabeta. É emocionante pensar que, 30 anos depois da publicação da carta, o neto dela receberia o Prêmio Nobel de Literatura. 

Eis a crônica:

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.


Pessoa por Sábat

Janeiro 8, 2009

 

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O uruguaio Hermenegildo Sábat é um artista extraordinário. Pintor, fotógrafo, caricaturista e clarinetista. Em novembro de 2005, visitando Buenos Aires, eu e Carol fomos procurá-lo na sede do jornal “El Carín”, onde Sábat trabalha há muitos anos como uma das estrelas do diário. Sem entrevista marcada ou qualquer aviso prévio, chegamos na recepção do jornal e pedimos para falar com ele – “somos dois fãs brasileiros”.

Após uma rápida consulta telefônica, a atendente nos indicou o caminho da redação. Instalado numa saleta, debruçado sobre uma mesa entulhada de livros, papéis, tubos de tinta, pincéis e canetas, encontramos um senhor de cabelos brancos que nos recebeu com um sorriso, gentilmente oferecendo cadeiras para nos sentarmos.

Entreguei a ele um exemplar de Embornal, antologia poética que Hermínio acabara de lançar e me incumbira de levar ao amigo. Sábat agradeceu o presente e começou a desfiar algumas de suas histórias vividas com músicos brasileiros. Também contou que, naqueles dias, sob encomenda do governo de Buenos Aires, estava trabalhando na criação de uma série de retratos de cantores e compositores de tango que seriam estampados nas estações do metrô. (Não sei dizer se o projeto se realizou).

Em certo momento da conversa, Carol, então editora do caderno Sinapse, da Folha, comentou que o jornal iria publicar uma matéria sobre Fernando Pessoa e que a página ficaria linda com uma ilustração de… Sábat. A idéia foi aceita na hora. O artista pegou o telefone, chamou o departamento de pesquisa e pediu recortes de jornal com fotografias do poeta português. Quando os recortes chegaram em sua sala, Sábat escolheu uma das imagens como referência, pegou uma folha de papel em branco e começou a desenhar.

O resultado é a ilustração acima. O trabalho saiu em menos de 15 minutos. O registro (editado) da criação é o vídeo abaixo.

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POR FALAR EM 15 MINUTOS…

Conta-se que, certa vez, quando já estava com seus 50 anos, o maranhense Fortuna (outro grande artista) recebeu de um diretor de publicidade a encomenda de ilustrar um anúncio. Ao dizer o preço que cobraria pelo trabalho, o desenhista teve que ouvir do marqueteiro: “Tá muito caro! Esse desenho você faz em 15 minutos…”. E, Fortuna, que possuía um currículo de Pif-Pafs e Pasquins, rebateu: 

– O sr. está enganado. Esse desenho leva 50 anos e 15 minutos para ser feito…


Janeiro 6, 2009

O trombone já tenho, o que me falta é o sopro. – Millôr Fernandes

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